sexta-feira, 27 de abril de 2012

Enxergando o óbvio


Nego enche a boca pra enfiar palavras em inglês em situações completamente desnecessárias. Gringo - que fala inglês bem melhor que a gente - vem ao Brasil e acha isso ridículo.

Professor sem-noção não tem a menor capacidade de dar uma boa aula e motivar seus alunos. E enche a boca pra falar que é Doutor.

Pessoas comuns escutam verdadeiros insultos, que a indústria fonográfica insiste em chamar de música. E acham isso ótimo. Alguns inclusive obrigam os outros a escutarem também, ao passarem com seus carros barulhentos.

Mídias divulgam conteúdo completamente enviesado, irrelevante, sem nada construtivo, carregado de preconceitos e deseducações. E ganham prêmios de responsabilidade social.

Nego se acha inovador repetindo o que dizem os caras A, B e C - caras que o cara renomado D garantiu que sabem o que estão falando.

Empresas consideram-se na vanguarda da tecnologia mundial porque sabem desenvolver sistemas de software, enquanto nego lá fora tá estudando e desenvolvendo as linguagens de programação que nem existem ainda, as plataformas que nem existem ainda, os conceitos abstratos que nem existem ainda.

Pesquisas científicas gastam milhões para descobrir coisas totalmente irrelevantes, inúteis ou óbvias. ("Cigarro faz mal", "Dormir bem faz bem", "Ser feliz é importante")

Nego escreve um livro tosco e bota mil estrelas em volta disso no currículo. Você vai ler o livro e acha um lixo. Você dá essa sua opinião pra alguém e a pessoa diz que você é que é chato.

Você conhece uma pessoa maravilhosamente competente que estudou numa faculdade particular, e outra pessoa incrivelmente imbecil que estudou numa renomada universidade pública. Essa última faz parte da elite intelectual do país e a primeira não.

Você tenta explicar alguma coisa que basta abrir os olhos para enxergar e é considerado herege porque a sua opinião diverge da opinião da maioria.


A cada dia que passa, três coisas acontecem comigo:
  1. fica mais óbvio pra mim o quão ridículo é tudo isso;
  2. tenho menos paciência com esse tipo de atitude;
  3. fica mais claro pra mim o quanto podemos, como humanidade, ser muito melhores do que isso.


Então, peço licença para parar de tentar enganar a mim mesmo e para dizer algumas coisas óbvias:

Que mania ridícula de usar estrangeirismos à toa.
Que mania ridícula de automaticamente se considerar inferior em tudo.
Que mania ridícula de achar que o que está escrito em livro é automaticamente verdade.
Que mania ridícula de agir de certas formas sem motivo nenhum, só porque "todo mundo sempre fez assim".
Que mania ridícula de valorizar coisas imbecis e discutir assuntos idiotas.
Que mania ridícula que homem tem de falar mal de mulher e mulher tem de falar mal de homem.
Que mania ridícula de achar que "ser desonestinho aqui rapidão" não tem problema nenhum.

(Como eu disse, ando sem paciência, então me desculpem a sinceridade :))

Acha que eu estou enganado? Dê argumentos.
Acha que eu sou maluco? Prove.
Discorda? Sustente uma opinião contrária.

Na boa? Estou de saco cheio de ser mal-visto, mal-interpretado e até considerado "alguém que não sabe o que está falando" por pessoas que nunca sequer pararam pra pensar nos assuntos sobre os quais eu reflito, analiso, discuto e estudo quase todos os dias da minha vida praticamente desde que eu nasci.

Para deixar claro: todas as minhas opiniões são muito bem fundamentadas. Elas têm como base conhecimentos em diversas áreas, sejam formais (computação, música, rádio) ou informais (didática, línguas, psicologia, filosofia), além do convívio constante com pessoas de diferentes áreas de atuação, religiões, origens e pontos de vista.

Isso não quer dizer que as minhas opiniões estejam sempre certas ou que você não possa ter opiniões diferentes. Só quer dizer que elas são válidas, e que outras opiniões também precisam estar fundamentadas. Não adianta dizer que algo não é válido sem explicar os porquês, apresentar uma alternativa ou no mínimo já ter refletido bastante sobre o assunto.

Se nem sempre eu pareço ter muita segurança no que estou falando, é pelo seguinte motivo: porque sei que ainda tenho muito o que aprender. Sei que posso mudar de opinião futuramente e sei que eu posso estar errado. Infelizmente, existe muita gente que se coloca como "aberto a discussão" e no fundo é cabeça-dura, só aceitando o que lhe convém e inventando maneiras de enganar a si mesmo ou de distorcer uma discussão.


Na boa? Se você quer ser inovador de verdade, renomado de verdade, respeitado de verdade, faça o seguinte:
  • Seja você mesmo. Olhe mais pra dentro do que pra fora.

  • Trabalhe no desenvolvimento do seu próprio senso crítico e aprenda a confiar nele. Ouça a todos, mas conclua por si mesmo.

  • Julgue as pessoas não por sua posição, título ou passado, e sim por sua coerência. Verifique se a pessoa vive o que diz, e se o que ela vive é uma coisa boa.

  • Aprenda a sentir as coisas. Existem conhecimentos que você tem duas formas de adquirir: 1) estudar durante 30 anos aplicando modelos estatísticos que comprovem cada detalhe cientificamente; 2) perceber a verdade em minutos apenas com sua intuição.

  • Livre-se dos preconceitos - de todos os que conseguir. Faça-se sempre as seguintes perguntas: 1) Sou eu mesmo que acredito nisso ou eu apenas fui ensinado a acreditar? 2) Eu já acreditei nisso um dia, mas será mesmo que eu ainda acredito hoje?

  • Cerque-se de boas influências. Conheça pessoas inspiradoras, ouça músicas inspiradoras, veja filmes inspiradores, leia histórias inspiradoras. Não me refiro necessariamente a obras motivacionais. Qualquer excelente trabalho é uma excelente fonte de inspiração.


Termino citando este texto, simples e direto, com o qual concordo plenamente, de um site que descobri hoje, o http://www.serprofessoruniversitario.pro.br/:
O Professor Universitário no Brasil é um amador e não um profissional da Educação. Pois em nenhum momento de sua carreira lhe é exigido, ou mesmo facilitado, que adquira conhecimentos e habilidades de Pedagogia e Didática.

As políticas públicas e a legislação sempre enfatizaram como exigência para o acesso à carreira o domínio e profundidade dos conhecimentos na área e matéria que irá ensinar.

Os poucos professores que adquirem essas habilidades e conhecimentos o fazem somente por interesse e iniciativa própria, e assim mesmo tendo que ultrapassar barreiras institucionais até mesmo para reconhecer as qualificações obtidas.


[posts relacionados: Inovação: isso é um absurdo!, Versão brasileira: Herbert Richers]

domingo, 18 de março de 2012

O fim dos computadores

Impossível uma oportunidade mais oportuna para comentar esse assunto. Nem precisei me dar ao trabalho de nomear o post, a notícia já fez isso por mim :)... (aliás, obrigado por me mandá-la, tia Cleide!)

Físico prevê o fim dos computadores

http://tecnologia.br.msn.com/noticias/f%C3%ADsico-prev%C3%AA-o-fim-dos-computadores

O físico teórico Michio Kaku, professor da Universidade de Nova York e co-criador da "Teoria das Cordas", afirmou que o computador como o conhecemos hoje terá desaparecido em 2020. “No futuro, eles estarão em todos os lugares e em lugar nenhum”, disse o cientista durante palestra realizada na Campus Party em 11 de fevereiro.

Na ocasião, Kaku fez um exercício de futurologia mostrando como será o mundo nos próximos 30 anos. Segundo ele, tanto os computadores como a internet serão como a eletricidade é hoje. “Ambos estarão presentes nos tetos, no subsolo, nas paredes e nos aparelhos”, afirmou.

O professor da Universidade de Nova York foi além e disse que a internet estará nos óculos e nas lentes de contato das pessoas. “Você será capaz de ver todas as informações biográficas de um individuo só olhando para ele. Encontrar sua alma gêmea será tarefa fácil”, brincou.

(...)


Vou dizer o que eu acho sobre essas previsões.

Eu acho o seguinte: uma enorme besteira. Calma que eu explico melhor :)...

Eu sei que foi um cara renomado que disse tudo isso e eu entendo perfeitamente os motivos que o levam a acreditar nessas ideias. E eu acho que realmente podemos passar por uma fase de alta tecnologia mesmo, com coisas similares ao que ele mencionou.

O que eu não acredito (e não há quem me faça acreditar) é que isso tudo se tornará ubíquo (presente em todo lugar, em todo país, em toda cidade, em toda casa, em toda pessoa etc.). Ou mesmo que chegará a uma parcela tão significativa assim da população.

Pode até ser que lançarão a lente de contato mágica que te guiará até sua alma gêmea, mas será que as pessoas vão ter mesmo vontade de usá-la?

É fácil imaginar que muita gente vai querer usar essas coisas futuristas. Mas por que a gente imagina isso? Porque pensamos no mundo como ele é HOJE. Se fosse HOJE, com certeza, teria muita gente querendo usar tudo isso.

Mas o futuro não fica no presente, o futuro fica no futuro. Será que no futuro o mundo vai continuar sendo como é hoje? Será que amanhã as pessoas vão continuar sendo como hoje, ávidas por tecnologia?

Eu acho que não. Aliás, eu acho que não MESMO. Eu acho que amanhã o mundo vai ser completamente diferente. Eu acho que as pessoas vão se cansar de tecnologia. As pessoas sempre se cansam de qualquer coisa que vira lugar comum demais. Sempre foi assim com o ser humano: ele se enche o saco de alguma coisa e volta a ser como era antes daquela coisa. Há eras na História que são mais racionais seguidas de eras mais emocionais. Eras mais industriais seguidas de eras mais artísticas. Eras com mais liberdade seguidas de eras com menos liberdade. Logo, por que não, eras com mais tecnologia seguidas de eras com menos tecnologia.

Sabe o que eu realmente acho? Eu acho que o que as pessoas vão querer fazer daqui a poucos anos é aquilo que no fundo elas sempre quiseram: viver em contato com a natureza, consumir produtos mais naturais, ter uma vida mais tranquila, enxergar o verde das árvores, ouvir o som das águas, dos pássaros... Sabe por quê? Porque ISSO é o mundo real. Esse mundo em que vivemos é completamente artificial, tem muito pouco a ver com o que está escrito nos nossos genes nos capítulos "Como funciona a vida" e "Como ser um ser humano".

E em breve as pessoas perceberão que o caminho que o mundo tem seguido está levando-o a uma situação em que todas essas coisas (natureza, tranquilidade, água, árvores) serão raras. E tudo o que é raro acaba atraindo atenção e valendo muito, acaba virando o objeto de desejo das pessoas.

O dia em que a gente se tocar que, ao abrir a torneira algum dia, pode começar a sair água suja, devido à poluição dos rios, talvez a gente acorde para o fato de que vale muito mais a pena trabalhar para despoluir as águas do que para produzir um iPod de 250 terabytes, ou uma televisão de 1200 polegadas, principalmente se for numa fábrica asiática com condições subumanas para os empregados (não que só lá tenha isso, mas lá tem bastante).

Algum dia, não muito distante, o ser humano vai perceber que não precisa de tecnologia para viver, mas precisa de comida, de água, de amigos, de família, de tranquilidade, de felicidade... Note que nada disso é mutuamente exclusivo com a tecnologia. É possível ter os dois. Mas só é possível ter os dois enquanto a existência de um não implicar na inexistência do outro. Se algum dia tivermos que escolher, aí, meu amigo... Adeus mundo conectado e telinhas bonitinhas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Como eu me tornei vegano


(Foto: pratos veganos preparados por membros do V.I.D.A.)



Este post surgiu a partir de uma conversa no Facebook com o Sr. Fabio Chaves.

Antigamente, eu tinha ideia de que os veganos eram em sua maioria uns sem-noção que só sabiam divulgar fotos horrorosas de animais dilacerados. Além disso, eu também achava que eles curtiam se denominar "vegans", mesmo morando no Brasil, talvez para parecerem mais chiques.

Eu nunca gostei de queijo, não sei por quê. Sempre achei tão nojento quanto carne. Dessa forma, em praticamente qualquer evento social eu sempre me ferrei quanto a comida. E sempre fui considerado fresco com relação à minha alimentação.

Um belo dia, mais ou menos em agosto/2010, eu simplesmente CANSEI disso tudo e decidi procurar pessoas veganas para conhecer, pois assim eu me livraria dessa chateação de ter que aguentar carne e queijo em todo lugar em que eu fosse comer. Aí eu fui procurar no orkut e acabei descobrindo uma comunidade onde a Renata anunciava sua hoje saudosa barraquinha do VegVida (não confundir com o V.I.D.A. acima), que era montada numa feira de uma praça perto da minha casa. Achei perfeito! Prometi a mim mesmo que iria lá no sábado seguinte.

Quando eu cheguei lá, aquilo foi simplesmente uma das coisas mais maravilhosas que já aconteceram na minha vida: eu estava diante de pessoas muito legais, que pensavam muito parecido comigo, que conversavam sobre coisas que eu achava que ninguém conversava, pessoas que não se importavam com as minhas preferências alimentares (até apoiavam, na verdade!). Eu ainda por cima estava diante de um cardápio cheio de opções deliciosas, dentre as quais eu poderia escolher QUALQUER COISA, sem jamais precisar me preocupar se no meio dos ingredientes teria algo que eu não comesse. Eu ainda por cima estava diante de uma pilha de Revistas dos Vegetarianos dizendo coisas interessantíssimas. Além de tudo isso, fui convidado pelo Ricky a me sentar à mesa da conversa e conheci toda a galera que estava por lá! E, para completar, todos usavam o termo em português, "vegano"! Achei que só eu fizesse isso :)...

Pra mim pareceu um sonho. Eu jamais havia imaginado que aquilo tudo fosse possível.

Mas eu não voltei pra casa nesse dia pensando em ser vegano. Voltei pra casa apenas querendo conhecer mais sobre aquela culinária fabulosa, dentro da qual eu poderia exercer toda a liberdade que eu sempre mereci e nunca soube disso. E descobri que existia uma infinidade de salgados, doces, assados, congelados, frios, quentes etc. que eu poderia comer tranquilamente... Um universo novo inteiro de possibilidades que eu estava para conhecer. E percebi que eu até então estava vivendo um mundo muito limitado e não sabia disso, antes eu achava que eu é que era o problema.

A ideia de me tornar vegano veio só alguns meses depois, quando eu entendi mais sobre as razões que levavam alguém a seguir essa filosofia e comecei a ver que todas elas faziam sentido. Eu ouvia cada argumento e pensava "Meu... Eu não consigo refutar isso! Isso é verdade, aquilo também e aquilo outro também!!".

O resto basicamente é história... Mas tem uma coisa que eu gostaria de destacar. Eu, que sou super mente aberta e que já tinha uma propensão GRANDE ao veganismo, demorei vários meses para REALMENTE começar a sequer entender de verdade essa filosofia, quanto mais concordar com ela e decidir segui-la. Eu sempre achei-a interessante, mas demorei bastante para abraçá-la como sendo boa pra mim. E ainda hoje eu não sou 100% vegano, pois sou meio preguiçoso para procurar informações quanto a testes em animais. Além disso, considero que eu deveria assistir a mais documentários, até para saber passar melhor as informações para outras pessoas. Sobre os produtos testados em animais, eu consumo muito poucos cosméticos, e compro aqueles que até onde eu sei são veganos. Então, considero que o impacto disso é minúsculo.

Outras pessoas podem discordar de mim. Alguns podem achar até errado eu me considerar vegano, estando nessa situação. O que eu considero é o seguinte: 1) sou 100% vegano na alimentação; 2) compro só sabonetes vegetais e não compro nada que eu saiba que contenha produtos de origem animal; 3) quero que o veganismo seja uma coisa BOA na minha vida, e não uma encheção de saco - e eu me conheço, tenho uma SÉRIA tendência a levar qualquer coisa como encheção de saco. Então, eu decidi que assim está bom para mim no momento. Um dia eu ainda vou me tornar 100% vegano em tudo (dentro do possível e razoável), mas por enquanto assim está ótimo. Considero que isso não é motivo suficiente para eu dizer que sou "quase vegano", até porque isso mais atrapalha do que ajuda ao conversar com as pessoas.

Por que eu estou contando tudo isso? Por que eu quero chegar no seguinte:

Ninguém tem como chegar e me dizer o que eu devo ou não fazer com relação à filosofia, como eu devo segui-la etc. Eu é que preciso descobrir isso tudo na minha vida. Absolutamente NINGUÉM saberia me dizer com certeza qual seria o melhor caminho pra mim. Eu achava horrível esse negócio de cenas fortes, eu NUNCA veria um documentário como o Terráqueos no primeiro dia em que eu conheci a barraquinha da Renata, e assisti ao filme por livre e espontânea vontade um tempo depois. Eu NUNCA entenderia de verdade o conceito de exploração animal somente com alguém me explicando. Eu precisei refletir durante muitos meses sobre isso e conversar com muitas pessoas para chegar às minhas próprias conclusões.

E é por isso que eu discordo de quem quer impor qualquer filosofia aos outros. É por isso que eu discordo de quem briga com os outros e de quem insiste em mostrar toda hora imagens chocantes para as pessoas, sem aquilo ser solicitado. Fazer qualquer coisas dessas é o mesmo que tentar ser um ditador, criando uma via de mão única da verdade: "Eu sei e você não, seu imbecil. Você tem que fazer assim, porque assim é certo, o resto é errado". As pessoas têm seus devidos tempos para enxergar as coisas. As pessoas vão enxergar as coisas dos seus próprios modos. As pessoas vão trilhar seus próprios caminhos, que serão diferentes dos de todas as outras, ainda que às vezes parecidos.

Eu sou a única pessoa que eu conheço que foi atrás do veganismo por causa do paladar. Com a maioria é ao contrário, o paladar é um dos desafios para adotar a filosofia. Eu já era vegetariano fazia uns 20 anos, mas nunca havia sido por causa de sentimento com os animais. E o que aconteceu é que uma coisa levou às outras e tudo acabou fazendo sentido na minha cabeça. Hoje, a questão do respeito aos animais é o ponto central pra mim.

Com outras pessoas, talvez funcione de outros jeitos. Cada um tem o seu jeito.

Eu penso que qualquer colocação de ideias deva ser feita da seguinte forma: exponha o que você sabe, exponha fatos, exponha opiniões, exponha as suas razões. E deixe a pessoa pensar e concluir por ela mesma. Não está no nosso alcance dar esse segundo passo, não temos esse poder. Outras formas de convencimento também funcionam às vezes, mas muitas geram resistências desnecessárias e criam laços frágeis. Quem toma atitudes por realmente acreditar nelas, aí sim, seguirá seus ideias pela vida inteira.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Versão brasileira: Herbert Richers

Primeiramente, gostaria de dizer que eu não sou um doido varrido ou um extremista dos infernos :)... As opiniões e ideias contidas aqui foram formadas ao longo de vários anos de observação e reflexão, e todas têm seus fundamentos e razões de ser. É claro que você tem todo o direito de discordar delas. Fique à vontade para comentar!

Segundamente, para passar a ideia completa e de uma forma plenamente compreensível, eu precisaria de vários dias ajustando esse texto, e não estou com muito tempo/saco para tanto :). Não sei se eu fui muito claro em alguns pontos. Por isso, qualquer dúvida, é só perguntar!

Vamos lá:

Eu simplesmente não entendo essa mania que muitos brasileiros têm de colocar palavras em inglês no meio das frases. É "off" daqui, é "vegan" dali, é "soft" de lá, é "clean" dali...

O mais engraçado é quando você tenta explicar que "clean" é o mesmo que "limpo". Aí a pessoa diz "Não não... Clean é clean! Limpo é outra coisa". É bem engraçado e triste ao mesmo tempo. É incrível como as pessoas têm a capacidade de pegar uma palavra X em inglês que significa exatamente Y em português e atribuir a ela um significado Z... Como elas conseguem? Tem que realmente ter uma grande imaginação!

Na verdade, eu sei muito bem porque isso acontece. Vamos do começo:

As palavras têm significados e também têm conotações. A gente cria um certo sentimento com relação às palavras que a gente usa, o nosso cérebro se acostuma com elas. A gente usa-as para indexar o nosso cérebro, acelerando a localização dos significados.

Um dia, nós, brasileiros, ouvimos algum estrangeiro dizendo a palavra clean para se referir a alguma coisa simples, direta, sem frescuras. Então, alguém do Brasil teve a seguinte sacada: "Ahhhhhhh, legal! Quer dizer então que clean é ISSO!!! Ótimo, vou começar a usar essa palavra!".

O que esse cidadão acabou de fazer foi associar um signo a um significado. O cérebro deste cidadão mapeou a palavra clean para o significado abstrato da palavra, que é independente de língua.

Aí alguém, um belo dia, percebe o óbvio: clean é limpo (tá no dicionário, e também no cérebro dos falantes das duas línguas). Limpo em português é clean em inglês, ponto. Alguma coisa pode muito bem ser chamada de limpa caso ela seja simples, direta, sem frescuras. O caminho de limpo para "simples, direto, sem frescuras" é exatamente o mesmo do inglês partindo da palavra clean, funciona aqui tanto quanto funciona lá fora. Só que, aqui, as pessoas não falam "This building has a clean architecture". Aqui, as pessoas não falam this, building, has, architecture. Elas falam, ou poderiam falar, "Esse prédio tem uma arquitetura bem limpa". Então, por que nego acha tão legal acrescentar o desnecessário clean na frase?

Simples, porque nego acha interessante o conceito de clean. E é interessante mesmo! O que o cidadão não percebe é que esse conceito não é exclusividade de quem fala inglês: esse conceito é universal. Esse conceito sempre existiu, e as pessoas sempre disseram ou puderam dizer a palavra limpo para se referir a ele. O clean não acrescentou nada na vida da gente. Mas a pessoa não sabe disso, ela acha que clean é a revolução do universo.

Vamos a um outro exemplo.

Vegan: palavra surgida na década de 1940, quando Donald Watson fundou The Vegan Society, no Reino Unido. Ótimo!! Perfeito, maravilhoso! Ele fundou essa sociedade no Reino Unido, onde curiosamente as pessoas falam inglês. A origem da palavra é simplesmente uma redução de vegetarian, pegando o começo e o fim da palavra (talvez uma analogia com o fato de veganos sejam, de uma forma bem simplificada, vegetarianos que comem algumas coisas a menos - então a palavra diminui, sacou?).

Um dia, o veganismo atravessou as fronteiras oceânicas e chegou num país chamado Brasil, onde as pessoas falam português. E algumas pessoas daqui começaram a falar vegan, igual no inglês. Outras pessoas perceberam que, se existe a palavra vegetariano, pode passar a existir a palavra vegano também. Simples assim. Aí, essas pessoas começaram a dizer vegano, vegana, veganismo, veganizar, veg o que você quiser. E funcionou muito bem assim desde então.

Enquanto isso, outras pessoas decidiram que diriam somente vegan. Essas mesmas pessoas não dizem veganism. Por quê? Talvez porque veganism seja uma palavra meio difícil e chata de se pronunciar. O que muita gente não sabe é que a pronúncia de vegan não é "vígan", é algo meio que "veígan", difícil de escrever a pronúncia, difícil de pronunciar, difícil de as pessoas entenderem quando você diz. Tudo isso é óbvio, afinal, é uma palavra estrangeira!! É óbvio que não temos prática em pronunciá-la, e não precisamos ter, pois existem palavras em português que funcionam perfeitamente bem nesse contexto. Mas, mesmo assim, parece que tem gente que acha mais chique, ou mais "original", ou mais sei lá o quê falar "vígan", "vígan", "vígan". A "vígan" de sustentação do prédio, por exemplo.

"Ah, mas 'vegano' é meio estranho!". "Ah, mas 'limpo' é feio!", "Ah, mas '50% de desconto' é tosco, muito melhor, mais curto e mais chique falar 50% OFF!". Muita gente pensa assim. Essas pessoas esquecem-se do fato de que toda palavra nasceu algum dia, nenhuma palavra "sempre existiu". Toda palavra causou estranhamentos no começo da sua existência, afinal, ela era NOVA!!! Tudo o que é novo causa estranhamentos. Os estrangeiros, quando ouviram vegan pela primeira vez, estranharam também. Com o tempo, eles se acostumaram. Percebo que nós aqui temos preguiça de passar por essa adaptação. Queremos puxar coisas prontas de fora, queremos evitar ao máximo qualquer desconforto ou estranhamento. Temos mania de achar que as palavras em inglês são mais "bonitas" e que as versões dela em português são "feias", só porque a gente não entende direito quando está dita em inglês e entende muito bem quando está dita em português. E então, já que a gente não entende, "deve estar bem assim", mas, quando a gente entende, acha "feio". É igual letra de música: muita gente acha melhor ouvir letra em inglês porque não entende o significado, porque, se for ver o significado mesmo, vai achar a letra ridícula. (OBS: não estou achando que a pessoa iria achar a letra ridícula; já ouvi gente realmente dizendo que ACHA a letra ridícula quando a entende!)

Deixa eu ver se eu saquei bem a ideia: é bonito não entender o que está sendo dito e é feio entender exatamente o que está sendo dito?

Loop significa laço, em inglês. Um loop na programação nada mais é do que um laço. Hein?? Sim! Já viu a forma de um laço? É uma linha curva, que começa em um ponto e termina nele mesmo, ou seja, é cíclico, volta para o início depois de terminar.

E aí? É bonito dizer loop e é feio dizer laço? Com certeza menos gente já ouviu laço com esse sentido e alguns vão achar estranho, mas será que a primeira vez em que loop foi dita lá fora as pessoas acharam 100% normal? Ou acharam meio estranho também? E será que não foi interessante perceber essa analogia do significado original da palavra com o significado que ela tem nesse contexto? Será que essa analogia não ajuda no entendimento?

É feio sacar na hora a analogia que se está usando para criar aquele novo conceito e é mais bonito usar uma palavra desconhecida, cuja analogia não será percebida? É feio dizer vazão de dados e é bonito dizer throughput? Algum brasileiro acha fácil escrever e pronunciar throughput?

Muitas vezes escrevemos mais ou menos assim:

O throughput do sistema (a "vazão" de dados) ...

É preciso mesmo ficar colocando entre aspas a palavra que representa exatamente o que o conceito é? É preciso ficar dizendo "Uma arquitetura clean é como se fosse, assim, 'limpa', sabe, não tem muitos elementos, é simples"? É preciso mesmo dizer esse "é como se fosse" para uma coisa que realmente É EXATAMENTE aquilo?


Eu sinto aí uma inversão de valores. Sinto que estamos querendo tomar atalhos que não deveríamos. Ficamos querendo evitar pequenos desconfortos com as palavras, e acabamos criando desconfortos maiores. A grande maioria da população brasileira não sabe inglês, ao contrário do que muitos de nós achamos. Ao usar termos em inglês, dificultamos o entendimento da informação. Pior ainda, fazemos essas pessoas se sentirem mal porque não entendem o que estamos dizendo. Também fazemos elas se acharem burras, porque não entendem o que estamos dizendo mas sentem que deveriam, quando na verdade nós é que deveríamos ter explicado a coisa de forma mais clara e acessível.

Não estou dizendo que não devemos estudar inglês, muito pelo contrário, devemos estudá-lo, e muito, a vida inteira. Mas não para piorarmos o português, e sim para melhorarmos nossa comunicação com pessoas de fora e sermos capazes de entender material vindo de fora (seja para estudo ou diversão).

"Ah, mas português é difícil!". Inglês também é muito difícil, apenas de maneiras diferentes. A questão é: alguém, lá fora, já teve todo o trabalho de descobrir ou inventar palavras para serem usadas em determinado contexto para significar determinados conceitos. Se a gente simplesmente importar essas palavras, é claro que fica mais fácil! Alguém já fez o trabalho sujo. E, ao se sujar, essa pessoa aprendeu um monte de coisas: conheceu palavras novas, conheceu significados novos, descobriu novos conceitos, e acabou aprimorando a ideia que ela gostaria de passar. Ao simplesmente pegar essas palavras prontas, você acabou de 1) dificultar o entendimento para o seu interlocutor; 2) perder um monte de analogias que fundamentavam as escolhas daquelas palavras; 3) reduzir o seu próprio entendimento do assunto em relação ao que você teria de entendimento se tivesse feito esse trabalho de buscar as palavras correspondentes (ou inventá-las) na sua própria língua.

Em outras palavras, você simplesmente aproveitou muito pouco do entendimento que poderia ter tido do assunto.

Pensando em nós como um país inteiro de pessoas fazendo isso sistematicamente, como ficamos? Ficamos daquele velho e tosco jeito: uma nação que tem o costume de apenas consumir coisas prontas, imitar os outros, repetir fórmulas, não aprender as coisas direito, não inovar.

Se a gente apenas decorar as palavras do livro-texto em inglês que a gente estudou e repetir essas palavras por aí, estaremos tentando replicar um conhecimento que foi produzido em uma outra cultura. Simplesmente não funciona direito.

Nós NÃO temos a mesma cultura dos Estados Unidos da América. Nós NUNCA seremos os Estados Unidos. E isso é ÓTIMO! Porque nenhum país tem que ser igual aos outros. Nenhum país É igual aos outros. Isso é que dá graça ao mundo. Cada país fala uma língua, e isso é ÓTIMO, ao contrário do que muita gente acha. Para nós, certas coisas fazem sentido que para eles não fazem (algumas piadas, por exemplo). O inverso também é verdadeiro: um monte de ditos populares, piadas, frases conhecidas etc. que eles têm lá NÃO FAZEM O MENOR SENTIDO para a gente, nem deveriam fazer. E as palavras que eles inventam lá fazem sentido para ELES, têm fundamento para eles, têm analogias boas pra eles. Nós aqui merecemos palavras mais próximas da gente, adaptadas para a NOSSA cultura.

Traduzir um livro, um filme ou qualquer texto não é um trabalho qualquer. O tradutor, já disse o Sr. Eduardo Spohr (do Nerdcast), é um ESCRITOR. Um tradutor ESCREVE um livro. Ele não apenas traduz as palavras, nem apenas as ideias. Ele captura a ESSÊNCIA do texto e reescreve-o, adapta-o para uma outra língua, uma outra cultura. Fizeram isso na dublagem do Chaves e Chapolin. Ficou bom, não?

Fizeram isso muitas outras vezes, e em algumas vezes ficou bom, em outras não ficou - assim como tudo na vida, que tem horas em que dá certo, tem horas em que não. Com esforço e dedicação, pode ficar muito bom. Não pense que está escrito na pedra que "traduzir = ficar tosco", "inglês é melhor que português", "português é muito difícil", "escrever é chato" etc. Cuidado com verdades absolutas. Elas podem te enganar, fazendo-se parecer que são suas, e na verdade terem vindo de algum outro lugar não confiável. Forme sua própria opinião. Pense na ideia, reflita sobre o tema, observe atentamente como funciona a comunicação entre as pessoas.


Eu NÃO estou dizendo para largarmos mão total de usar palavras em inglês, nem que devemos traduzir tudo. O que eu quero mesmo é mostrar um outro lado da questão muito pouco comentado. Quero mostrar que o "não traduzir nada, NUNCA" pode ser tão prejudicial quanto o "traduzir tudo, SEMPRE". Quero mostrar que a maioria de nós tem, em geral, uma visão meio enviesada, tendenciosa da coisa, pois poucas pessoas realmente param pra pensar de verdade no assunto. O que mais se vê são opiniões prontas sendo repetidas pra todo lado, e eu acho isso muito perigoso. A maioria das pessoas acha que tem mais é que não se preocupar nem um pouco com isso, tem que falar como quiser, fazer como quiser e pronto. E eu vejo essa visão como sendo tão problemática e extremista quanto "traduz tudo sempre, é proibido falar em inglês, isso tudo é uma vergonha nacional". E lembro também que o lance da tradução é apenas um dos muitos pontos da questão, possivelmente o mais polêmico. O assunto vai muito além, passando por áreas como Línguas, Línguística, Psicologia Cognitiva, Filosofia da Ciência etc.


Como leitura extra, recomendo (principalmente aos computeiros) o texto Tradução de Textos de Computação e Informática para o Português. É de um professor da USP chamado Fábio Kon. Ele discute brevemente a questão e sugere algumas traduções interessantes. Eu discordo de algumas ideias dele (por exemplo a questão da palavra site), mas achei algumas coisas muito da hora, por exemplo a ideia do complexo de inferioridade e a tradução correta para a palavra assume (supor, considerar - acrescento ainda: presumir -, e não assumir, que tem outro significado. A palavra assume é um falso cognato).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Vida, coisas, previsões

Hoje, eu vejo que o caminho do deslumbre me levou até coisas maravilhosas. Hoje, eu vejo que ter ouvido o meu coração foi, realmente, a melhor coisa que eu poderia ter feito. Hoje, eu vejo que muitas das críticas que eu recebi não eram críticas, eram não-entendimentos. Hoje, eu vejo que o entendimento é mais uma questão de compreensão e diálogo do que qualquer outra coisa. Mesmo assim, nem sempre ele ocorre.

Quando ele não ocorre, em geral, é tempo de tomar decisões meio arriscadas, caminhos tortuosos, não-convencionais, contrários a outras possibilidades que pareciam mais certas e concretas. Certas coisas têm significado para você e somente para você. É assim que funciona. Nem sempre outras pessoas irão te entender completamente. O mais importante mesmo é que VOCÊ se entenda, um dia.


Essa história de caminho certo e concreto, às vezes, me parece um tanto furada. Eu não diria "nunca funciona". Muitas vezes, funciona sim. Quem sabe mesmo dizer se funciona ou não é o seu coração, ou a sua consciência, como preferir chamar. De alguma maneira, você sabe os caminhos que quer seguir. Steve Jobs disse isso, assim como muita gente, MUITA GENTE disse isso. Muita gente na história desse planeta já falou isso, de tantas formas diferentes, em tantas línguas diferentes, em tantos períodos diferentes.

Muita gente sacou essa parada e compartilhou com os outros. Hoje existe a opção "Compartilhar" do Facebook. Antigamente não tinha, era transmitido oralmente, ou pelos livros, ou de pai pra filho. Hoje existe o "Compartilhar" do Facebook, mas continuam existindo todas as outras formas também. Muita gente ignora essas formas, acha que são coisas do passado.

Tem gente que acha que carta não serve mais pra nada, ou nem lembra que elas existem. Cartas, obviamente, não são a forma principal de comunicação hoje, mas isso não é um problema. As cartas ainda têm seu espaço. Alguém aí acha que "e-mails de amor" são tão legais quanto cartas de amor? Alguém acha cartões virtuais de Natal tão da hora quanto cartões reais, físicos, que a pessoa teve o trabalho de comprar/fazer, escrever, ir no correio e postar pra você?

Cartas têm seu lugar, assim como o telefone fixo tem seu lugar, assim como os computadores desktop têm o seu lugar, assim como o rádio tem seu lugar, assim como tantas outras coisas antigas ou nem tão antigas têm seus lugares. Os discos de vinil têm seus lugares. As coisas não somem, só diminuem. E, muitas vezes, até voltam.

Na Computação, alguns acreditavam que aplicativos nativos iriam sumir e a web iria dominar geral, sem espaço pra mais nada. Aí vieram os smartphones e os aplicativos nativos bombaram outra vez. Existem incontáveis outros exemplos, dentro e fora da Computação. Muitas coisas são cíclicas: estão de um jeito hoje, estão diferentes amanhã, aí depois de amanhã voltam a ser como eram hoje. E no dia seguinte podem estar de qualquer jeito, previsto ou não.

Tenhamos cuidado ao fazer previsões, elas podem nos enganar. A verdade é que ninguém sabe realmente o que vai acontecer no futuro. Então, em vez de ficarmos buscando dados e mais dados para corroborar nossas teorias, talvez seja melhor aceitarmos que elas são apenas hipóteses, e não vivermos somente com base nelas ou na dependência de que elas se tornem realidade. Se elas forem verdadeiras, beleza. Se não forem, beleza também. Creio que esse seja o segredo: não depender da situação, pessoas, coisas, governos ou qualquer outra coisa para ser feliz.

A felicidade mora em você, não no mundo. O mundo vai ficar girando e mudando o tempo todo. Apegar-se a ele é como depender do corrimão de uma escada rolante para se equilibrar: uma hora ele acaba, e aí você precisa caminhar com seus próprios pés e equilibrar-se sozinho. E é mais fácil aprender a equilibrar-se sozinho quando você ainda tem o corrimão para te ajudar. Quando ele acaba, se você dependia dele, de uma hora pra outra vai ter que se virar sem.

A vida nos dá muitas oportunidades de aprendermos a nos desapegar das coisas e pessoas. Não é que você não pode tê-las; você pode. Só não deve depender delas para ser feliz. Se o seu dia só é feliz se você tomar café da manhã na padaria da esquina, o dia em que ela fechar você vai passar automaticamente a ter dias infelizes? Alguns agem assim, por incrível que pareça. Outros aproveitam as coisas boas tão bem quanto esses, mas com consciência de que essas coisas podem acabar. Mas eles não se importam com isso, pois sabem que novas coisas boas virão depois.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Engenharia de Software do Mundo Real (ESMR)


Se um dia eu for dar aula de Engenharia de Software, a primeira coisa que irei fazer é dizer aos meus alunos:

Galera, seguinte:

Por alguma razão desconhecida, existem pessoas no mundo que colocam a Engenharia de Software como uma disciplina nebulosa, excessivamente teórica, abarrotada de modelos/diagramas/processos e desconectada das linhas de código nossas de cada dia. Normalmente, são pessoas que não gostam de programar, nem gostam de mexer com bancos de dados, nem com nenhuma tecnologia do mundo real.

Software, no mundo real, é um conjunto de programas, bancos de dados e tecnologias do mundo real. Engenharia, no mundo real, é a aplicação de técnicas e conhecimentos na construção de algo que realize um objetivo.

Engenharia de Software, portanto, é a ciência, arte e prática de se fazer software de qualidade que cumpra um objetivo. Em última análise, é saber mandar bem no código, saber botar um sistema no ar e saber fazer com que ele faça o que tem que ser feito. E ser capaz de manter isso tudo funcionando hoje, amanhã, depois de amanhã e depois de depois de amanhã.

Assim, imagino que uma pessoa daquele tipo que eu mencionei anteriormente se encaixe em uma das seguintes categorias: ou não sabe o que é engenharia, ou não sabe o que é software.

Saibam programar, saibam mexer no banco de dados, saibam usar as tecnologias. Saibam fazer software.

Essa foi nossa primeira aula. Obrigado a todos pela atenção! E lembrem-se de dar uma olhada no material de apoio.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

As bobagens da vida

Se você nunca chorou de emoção por alguma coisa, é porque talvez essa coisa não seja tão importante assim para você.

Pensei nisso após ter chorado ao ver este vídeo: uma interpretação da música Gerudo Valley, do jogo Zelda - Ocarina of Time, em dois violões. Olha só:




Após ver o vídeo, li um post muito legal chamado "Elogio ao loser" e me senti inspirado para escrever sobre esse assunto.

Chorar é humano, e o homem másculo do sexo masculino também é humano e também chora. Quem não chora talvez esteja, sem saber, vivendo em uma prisão, uma prisão com cartazes nas paredes dizendo que, para sermos felizes, precisamos fazer o seguinte: 1) ser vencedores, 2) ter objetivos na vida, 3) não perder tempo com bobagens.

Eu nunca quis ser um vencedor nem tive muitos objetivos definidos na minha vida. O que eu mais gostei mesmo sempre foi perder tempo com bobagens, tipo as trilhas sonoras dos jogos que eu jogava. Essa, com certeza, sempre foi uma das bobagens que eu mais curti na vida: ouvir, analisar e apreciar essas músicas maravilhosas, feitas com amor, feitas com esmero pelos seus compositores. Músicas que refletem magistralmente o momento emocionante que você está vivendo na pele de algum personagem. Músicas que encantam milhões de pessoas ao redor do mundo. Músicas que entraram para a eternidade, assim como as músicas de Mozart, Beethoven e tantos outros.

Eu acho que nunca irei deixar meu costume de perder tempo com bobagens. Até porque foi assim que eu vim parar na Computação e sou extremamente realizado nela. Até porque foi assim que eu vim parar no veganismo e me encontrei completamente nele. Até porque foi assim que eu acabei fazendo muitos dos meus amigos de hoje e sou profundamente grato por tê-los.

Ter objetivos e desejar vencer na vida é, sim, um possível caminho para a felicidade. Mas com certeza não é o único. Perder tempo com bobagens às vezes também funciona. Principalmente quando elas são capazes de extrair lágrimas dos seus olhos.