terça-feira, 21 de agosto de 2012

Adeus a Altamiro


Conhecido por muitas pessoas mais velhas, desconhecido por muitas pessoas mais novas, conhecido e reconhecido por TODAS as pessoas que apreciam choro. Na quarta-feira, dia 15 de agosto de 2012, foi-se Altamiro Carrilho, um dos grandes mestres musicais desse país.

Em 2005, o figura esteve em São Carlos, no Festival Chorando Sem Parar, como homenageado do ano. Com seu sotaque carioca e seu jeito meio sem jeito, falou, falou, falou... E tocou, tocou, tocou. Não só a flauta, mas também o público. Conquistou a simpatia de todos, o que não é difícil, pois, mesmo reforçando várias que "não merecia aquela homenagem", sua música indicou justamente o contrário. Quem estava lá, deve lembrar-se de quando cantamos Carinhoso todos juntos, certamente um dos momentos mais memoráveis daquele dia.

Em 2010, o figura novamente esteve em São Carlos, no mesmo festival. Já mais idoso, com mais dificuldade de locomoção e mais magro, porém com a mesma modéstia e jeitinho conversador que lhe eram peculiares, características que apenas reforçavam sua simpatia e simplicidade.

Na ocasião, eu já estava mais a par de seu trabalho, conhecia alguns de seus CDs. Neles, descobri músicas extremamente originais e criativas desse grande artista, destacando-se em meio a tantos choros comunzões que eu já tinha ouvido. Veja por exemplo esta música: A Máquina de Escrever



Acabei de descobrir que a composição não é dele, mas de qualquer forma eu poucas vezes já tinha ouvido alguém pegar músicas eruditas e tocá-las em choro, ainda mais com tanta propriedade, vivacidade e bom humor. O cara não era nada jovem, e seu trabalho era totalmente inovador!


Outra dessas músicas que eu curtia pra caramba era uma chamada Contatos Imediatos:


Eu nunca assisti ao filme homônimo, mas conhecia essas cinco notinhas do início, e achava mó da hora (imagina se eu iria deixar de gostar de alguma trilha sonora :)).


Outra música sensacional do mestre é esta: Aeroporto do Galeão



Num dado momento do Chorando Sem Parar 2010, o Altamiro tocou Aeroporto do Galeão, e contou a história de como compôs essa música. Ele ia com frequência ao (adivinhe) Aeroporto do Galeão, no RJ, e lá sempre ouvia essas quatro notinhas iniciais, muito provavelmente precedendo aqueles clássicos anúncios feitos no microfone ("Atenção senhores passageiros do voo..."). Ele achava o sonzinho legal e pensou que talvez desse para fazer uma música em cima disso. E fez!

Em seguida, no mesmo Chorando Sem Parar 2010, o Altamiro pediu para a plateia sugerir alguma música. Foi nesse momento que criei coragem e comecei a gritar: "Contatos Imediatos!! CONTATOS IMEDIATOS!!!"

Ao ouvir o nome da música que eu estava falando, ele disse o seguinte: "Ahhh, esse aí está por dentro do meu repertório!", e eu já me senti o cara :)... E ainda contou também a história de quando ele criou essa música. Ele assistiu ao filme, e achou esse teminha muito interessante. De lá, tirou inspiração para fazer a música. E fez. Se eu não me engano, ele até disse que não achou o filme grande coisa, mas que essas 5 notinhas (Lá Si Sol, Sol< Ré) realmente lhe chamaram a atenção.


Essas pequenas historinhas que ele contou, de como compôs essas duas músicas, tiveram uma grande influência na minha vida. Se você entendê-las simplesmente como "o cara ouviu as notinhas, achou legal, compôs em cima e ponto", não vai parecer grande coisa. Mas, se você extrapolar um pouquinho, vai perceber que é muito mais do que um simples "só sei que foi assim": é isso que os gênios fazem.

Os gênios, ao contrário do que muita gente pensa, não são aquelas pessoas que passam semanas em seus laboratórios secretos bolando formas de dominar o mundo. As pessoas que realmente são boas no que fazem são aquelas que buscam inspiração para sua arte no seu dia-a-dia. É vendo um filminho aqui ou ali, vendo uma notícia que saiu no jornal, ouvindo uma fala engraçada de algum amigo, vivenciando uma situação irônica, uma situação difícil... Os gênios fazem da sua própria vida um caminho natural para a sua arte e o seu trabalho.

Vale ressaltar que, quando ele foi começar a tocar a música Contatos Imediatos, ele não se lembrava muito bem das notas, estava confundindo-as com as da Aeroporto do Galeão, que ele tinha acabado de tocar (e as duas são bem parecidas mesmo). Aí, ele pediu para que eu, que tinha pedido a música, ajudasse-o a relembrá-la.

Esse foi meu momento de glória, do qual vou me lembrar pro resto de minha vida. Levantei-me, em meio a centenas de pessoas, ergui os braços e, como que regendo uma orquestra, cantei: "tã tã tã, tó tããããã...". Recebi aplausos de todos, e, com esse solfejo, ele pôde começar a música e presentear-nos com aquele belo e original som, que só o Altamiro sabia fazer.

Eu me senti especialmente recompensado com o meu pedido atendido. Ganhei o dia, ou melhor, o ano, ou melhor, a vida! Lembrarei-me para o resto da minha vida desse momento tão marcante. E o próprio Altamiro também deve ter se lembrado bastante desse ocorrido, pois, após o palco, fui procurá-lo para tirar uma foto com ele e ele me parabenizou pela coragem de ter cantado o começo da música na frente de todo mundo.


Hoje, Altamiro descansa em paz e o céu está mais alegre com sua presença. Certamente, as boas almas do outro lado receberam-no em um lindo coro cantando Carinhoso. E ele deve ter se emocionado, assim como emocionou muita gente aqui na Terra durante os 87 anos que passou aqui com a gente.

Valeu, Carrilhão! É do Brasil!!!!





Altamiro Aquino Carrilho
21/12/1924 - 15/08/2012



domingo, 12 de agosto de 2012

Reinventando a roda

Estou ouvindo agora o Nerdcast 320, e lá pelo 1h14min eles falam algo sobre "fazer upload da sua consciência para outro planeta, já que o ser humano não aguentaria uma viagem para Marte".

Colocado assim, o contexto parece meio absurdo. Mas vamos deixá-lo um pouco de lado. Vamos considerar apenas essa ideia de "o que é que a gente será capaz de fazer no futuro com o avanço da tecnologia?", "quais problemas conseguiremos resolver?" etc.

Eu fico ouvindo essas paradas aí e fico pensando... Até quando a gente vai ficar achando que sabe resolver os problemas do mundo melhor que a natureza?

Vc com ctz já ouviu falar no tanto de lixo, esgoto, poluentes etc. que nossas cidades geram. Isso, em grande parte, é devido à quantidade de gente que existe no mundo. No entanto, será que esse realmente é o único motivo da existência desse problema?

O que ninguém fala é o seguinte: vc já parou pra pensar em como as coisas funcionavam quando não existiam as cidades imensas que a gente conhece hoje? Você já parou pra pensar em como funcionam as coisas, por exemplo, numa floresta? Quanto se produz, quanto se consome, quanto é realmente necessário e para onde vai tudo o que é produzido e consumido?


Não sou especialista no assunto, mas não precisa muito para imaginar o quanto funciona melhor do que o que conhecemos do cotidiano urbano. Matéria orgânica natural é biodegradável. Ela entra no ciclo da decomposição e passa a fazer parte de outros seres. Sim, alguns dos seus átomos com certeza já fizeram parte de plantas e animais! A natureza já resolveu esse problema.

Mas aí, vai lá o ser humano e inventa, por exemplo, o plástico. Inventa de extrair petróleo. Inventa os pigmentos químicos de origem sei lá qual. Aí, mistura tudo isso, inventa um monte de bagulho tóxico e que não se decompõe na natureza. Depois de um tempo, começa a usar paradas assim para produzir eletrônicos. Depois, enfia na cabeça da população a necessidade de consumir eletrônicos desesperadamente. (estou pretensiosamente resumindo em um parágrafo alguns séculos ou milênios de história :P)

Pronto. Agora, temos uma sociedade consumista e produtora de toneladas de lixo tóxico, lembrando que os eletrônicos são só um exemplo, tem muito mais coisa.

Considerando-nos superiores à natureza, resolvemos bolar nossas próprias soluções para esses problemas: aterros sanitários, reciclagem, exportação de lixo para países subdesenvolvidos... Ótimas soluções, não? Super eficazes.


Isso acontece DIRETO. Vivemos tentando solucionar problemas que na verdade não existem, ou melhor, que não deveriam existir, e que não existiam até o ser humano ir lá e criá-los.

Mas o grande problema não é esse. Errar é humano, já diz o ditado. O problema é insistir no erro. Meu... Não é mandando todo mundo pra Marte que nós vamos reparar todos os erros que cometemos nesse planeta.

Pode até ser que, na prática, a única solução seja começar uma sociedade de novo mesmo, do zero. A questão é: mesmo que a gente comece tudo de novo, só vai dar certo se a gente mudar nossa mentalidade. Mudando nossa mentalidade, temos a chance de chegar na melhor solução possível para qualquer problema, que é NÃO TER o problema.

Tem gente que parece ter uma dificuldade enorme de entender isso e lidar com isso. Tem gente para quem parece absurda a ideia de eliminar um problema, tal é o envolvimento dela com a atividade de dar um jeito nas consequências dele. É tipo um bombeiro todo dia tendo que apagar um incêndio: se você resolve o problema que estava causando o incêndio e agora ele não acontece mais, o trabalho desse bombeiro, nesse contexto, torna-se desnecessário. Seria isso ruim, porque "ele perde o emprego"? Claro que não, isso é ótimo!! Agora ele poderá se dedicar a alguma outra atividade mais importante do que ficar reparando os erros dos outros. Mas isso depende de ele se dispor a mudar de atividade, o que muitas vezes não acontece.

Da mesma forma, será mesmo que "precisamos resolver o problema da quantidade de lixo produzida"? Será que essa é realmente a questão, ou será que a questão mais importante mesmo é: por que é que existe o problema do lixo? Quais são os motivos da existência desse e de outros problemas? Será que ficar tomando remedinho pra resfriado toda semana a gente está se curando do verdadeiro mal, ou estamos apenas tapando o sol com a peneira?


Quando vamos desenvolver software, ninguém em sã consciência resolve tudo do zero. Você reaproveita soluções prontas, e economiza muito com isso: tempo, dinheiro, dores de cabeça... Alguém já teve aquele problema antes de você, já estudou-o e, muitas vezes, resolveu-o muito bem. Tem até bordão pra isso: "não reinvente a roda".

Infelizmente, não vejo muito essa lição sendo aplicada com relação à natureza. Ela já resolveu muitos, MUITOS problemas. A natureza é uma coisa maravilhosa. Observando-a, podemos notar muitos padrões, que se repetem no micro e no macro, em tudo quanto é lugar e ocasião (vide a proporção áurea, por exemplo). Podemos aprender muito com os fenômenos naturais, obtendo inspiração para solucionar vários problemas, seja na área de software, urbanismo, arte, sociedade ou quaisquer outras. Só que não existe um GitHub dela já com tudo prontinho pra ser consultado e baixado: precisamos de um pouco mais de sensibilidade do que isso para captarmos essas ideias e apreciar seu verdadeiro valor.

(Ops, na verdade, acabei de acessar https://github.com/natureza e na verdade existe! Só que não tem nenhum repositório, então continuamos na mesma :P)


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Retrocesso tecnológico

"O mercado de dispositivos móveis não para de crescer, bla bla bla bla".

Agora mesmo tentei jogar um jogo chamado Magic Portals, brasileiro, que parece muito legal, e descobri que esse negócio só roda em Android e iPhone. Pela descrição do tal do Ethanon Engine, também brazuca, eu achei que ele rodasse meio que em qualquer plataforma, inclusive o eterno, clássico, inesquecível computador desktop.

Às vezes sinto como se estivéssemos vivendo uma era meio que da "exclusão do desktop". Tanto se fala em dispositivos móveis e muito pouco se fala no bom e velho desktop ou notebook. Eu realmente espero que não comecem a esquecer esses dispositivos, porque eu não estou a fim de ser obrigado a comprar nenhum smartphone pra poder ver e fazer o que eu sempre pude ver e fazer sem ter um.

Às vezes, me sinto um estranho no ninho por não ter nenhum Android ou iPhone, e olha que eu tenho um iPod Touch, que é quase um iPhone, com a diferença de que eu não fico usando-o o tempo todo (o que, de fato, faz bastante diferença).

Outra coisa é que eu simplesmente não enxergo vantagem em ficar acessando a internet de qualquer lugar. Internet, pra mim, perdoem-me pelo pensamento de tiozão, foi feita pra ser usada em casa, no trabalho etc. Não quero ficar fazendo check-in nos lugares pra onde vou, nem ficar competindo com meus amigos pra ver quem faz mais avaliações de restaurantes da cidade. Não quero ficar usando uma interface limitada como uma telinha com tecladinho virtual, enquanto em casa eu tenho uma tela de 15,4 polegadas + outra de 20 à minha disposição, além do meu mouse e teclado ABNT2, cheio de teclas pra serem pressionadas.

Que fique claro que eu não estou dizendo "usar internet no celular não serve pra nada". Eu já usei e achei muito legal em algumas situações. Só acho que não se compara a usá-la num PC.

Também tenho plena consciência de que existem jogos completamente apropriados para telas sensíveis a toque, que ficam muito melhor de serem jogados assim do que ficariam usando um mouse.

Mas eu não canso de achar que toda essa obsessão mundial por celulares e afins não tem raízes no verdadeiro desejo das pessoas. Não canso de achar que o único motor significativo dessa tal "mudança de costumes" seja simplesmente o desejo dos fabricantes de ganhar mais e mais dinheiro.

Eu olho ao meu redor no meu país e vejo gente que não tem acesso à educação, vejo gente que não tem acesso à cultura, vejo assassinatos da língua portuguesa, vejo gente ouvindo atentados musicais aos ouvidos... E, na boa, não é um aparelhinho caro carregado no bolso que vai mudar essa situação. "Ah, mas aí a pessoa vai conseguir acessar a Wikipédia pagando um plano 3G baratinho!!". Sim, ela vai poder. Mas será que ela VAI fazer isso? Eu acho que não. Eu acho que, quanto mais a gente se distancia dos verdadeiros assuntos que deveriam ser tratados (tipo a educação), mais aumentamos as distâncias entre ricos e pobres, letrados e iliteratos. Quanto mais a gente se dá desculpa sobre o que é e o que não é importante de fato para a vida das pessoas, mais deixamos de enxergar os fatos e mais vivemos num mundo de ilusão.

Educação não é uma opção. Arrisco dizer que quase qualquer problema comum que vemos por aqui é decorrente da falta de educação. "Ah, o Brasil tá violento"... Educação. "Ah, a qualidade dos serviços aqui é ruim"... Educação. "Ah, aqui é só corrupção"... Educação. "Ah, no exterior os motoristas param na faixa de pedestres, aqui não"... Educação. "Ah, acordei com o pé doendo hoje"... Educação.

Eu desisti de política. Nunca fui muito fã, mas teve uma época em que eu considerei importante e quis acompanhar mais. Hoje, pra mim, não é mais do meu interesse. Pra mim, hoje, não importa plataforma de governo, não importa política externa, não importa esquerda/centro/direita. Só o que importa é o quanto esses ditos representantes do povo vão conseguir botar crianças, jovens e adultos em salas de aula e fora delas e pagar o valor merecido para os professores desse país fazerem um excelente trabalho de ensino com essas pessoas, e o quanto vão fazer essas pessoas saberem caminhar com suas próprias pernas e se desenvolverem pessoal e profissionalmente.

Na minha opinião, não adianta NADA o país melhorar sua condição econômica, financeira, produtiva, industrial bla bla bla enquanto eu não puder andar na rua e ver uma calçada limpa, resultado do MÍNIMO de educação que eu gostaria de esperar das pessoas que aqui habitam. Pra mim não adianta NADA a minha cidade ter um PIB imenso e eu quase todo dia ter que aguentar presepeiro tocando som alto e ridículo em seu carro na minha rua. Pra mim não adianta nada eu ter um bom salário e pensar que tem nego se matando muito mais do que eu e ganhando muito menos.

Isso tudo é questão de mentalidade, política e cultura. Não é uma questão tecnológica, não é uma questão matemática, não é uma questão financeira.

O mundo não precisa de mais dinheiro, mais lucro, mais contas fechando, mais tecnologia. O mundo precisa saber aproveitar melhor o que ele já tem para funcionar melhor. O mundo funciona muito mal. É ridículo a gente ficar se considerando uma sociedade tão avançada com o tanto de poluição e impacto ambiental que a gente gera. É ridículo um país tipo os EUA considerar-se tão desenvolvido e ter uma dependência externa enorme de manufatura, pagando salários absurdamente baixos para as pessoas que trabalham nessas fábricas. É ridículo a gente ficar se achando isso e aquilo enquanto tem nego morrendo de fome, matando e roubando.

Abre o olho aí, ser humano :)... Tá na hora de reavaliarmos seriamente nosso conceito de avançado, desenvolvido e coisa e tal.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A busca por não sei o quê

Eu estou na busca desse não sei o quê.

Eu não sei bem o que é, mas eu sei que passa por língua portuguesa, lógica, espiritualidade, desenvolvimento de software, boa música, simpatia, boa convivência...

Na verdade eu sei o que é, só não sei muito bem colocar em palavras. Tem a ver com Deus, tem a ver com mudar o mundo, tem a ver com coisas boas, bem-estar, felicidade... Mas não é exatamente nenhuma dessas coisas.

Bom, e o que é que a gente sabe sobre o que são cada uma dessas coisas, né? E o que é que a gente sabe sobre a exatidão de cada uma dessas coisas? O que é que a gente sabe sobre a exatidão de quase QUALQUER coisa?

Arrisco dizer que só sabemos racionalmente algumas poucas coisas puramente lógicas, que nada mais são do que consequências dos nossos paradigmas. Interpreto "paradigma" como "um conjunto de axiomas", ou seja, as premissas básicas que você toma, decidindo não prová-las, e sim usá-las como base pra provar outras coisas.

Fora essas poucas coisas puramente lógicas, sujeitas à validade de seus axiomas, sabemos quase nada. Isso considerando esse "sabemos" no sentido objetivo da coisa. Porque, no sentido mais subjetivo e intuitivo, sabemos MUITO mais coisas e temos MUITO mais potencial.

Provar é uma atividade que consome muita energia. Convencer os outros, então, nem se fala! Isso tudo desgasta muito, principalmente quando o outro lado não quer ser convencido de alguma coisa ou não está aberto a novas ideias.

Por outro lado, o entender intuitivamente simplesmente torna desnecessária essa etapa, o que economiza um monte de energia. Entender intuitivamente é uma forma muito eficiente de usar sua energia, permitindo que você use o que sobrou para outras coisas, tipo outros entendimentos.

Isso me lembra um pouco a área acadêmica (mestrado/doutorado) e aquela suposta necessidade de ficar justificando cada passo que você dá. Eu lembro como eu achava isso um saco, pois tinhas coisas que daria mais trabalho justificar do que simplesmente fazer e mostrar o bom resultado. Mesmo assim, tinha que fazer. Tem muitas situações na vida que exigem isso da gente. Em algumas dessas, não tem muito o que fazer, tem que jogar o jogo assim mesmo. Em outras, dá para simplificar o processo e render melhor.

Mas o que importa mesmo é que, independentemente de como é a sua vida quando você está com os outros, quando você está somente com VOCÊ MESMO, você realmente não precisa (ou não deveria precisar) ficar gastando essa energia de convencimento. Aí entra toda a parada de acreditar em você mesmo, de gostar de si mesmo e talz. Quando isso tudo acontece, você diminui o atrito da sua autocomunicação, e diminuindo o atrito você economiza energia.

Creio que esse processo intuitivo, paradoxalmente, acabe na verdade gerando uma visão muito mais objetiva das coisas, mesmo que o caminho seja o da subjetividade. A longo prazo, seguindo esse processo, você ganha uma visão mais ampla, mais real do mundo. Isso, sim, é objetividade, mesmo não sendo "amplamente sustentada por fortes argumentos concretos apoiados por grandes pesquisadores".

Pesquisadores grandes de verdade não ficam se ligando tanto no que os outros acham. Eles aprendem com os outros e depois geram coisas novas. E coisas novas estão fadadas a gerar estranhamentos e dúvidas das outras pessoas, o que até aí é normal e blz, mas se nego começar a questionar demais ou ficar procurando defeito, vai acabar encontrando coisa que não existe, ou melhor, vai acabar criando problema.

Nas primeiras vezes em que eu escutei esse lance de que às vezes a dúvida gera malefícios, eu achei meio estranho. Hoje eu acho perfeitamente plausível. Existe um nível saudável de dúvida para se ter. Acima disso, prejudica. E esse nível varia conforme o assunto. Os assuntos mais sutis e espirituais exigem uma abertura e desprendimento muito grandes para serem entendidos. Dúvidas pequenas já são capazes de dificultar ou impossibilitar certas compreensões de nível mais elevado.

Repare que eu não estou de maneira nenhuma defendendo que se tenha uma fé cega nem nada disso. Pelo contrário, o negócio TEM que fazer sentido pra você. O que eu estou defendendo é que esse sentido varia muito, nem sempre ele é racional ou logicamente explicável. Às vezes é, sim, mas muitas vezes não. E nós, enquanto humanidade, precisamos aprender a lidar melhor com esse lance todo da intuição, que anda meio esquecido em alguns meios mais racionalistas. Eu vivo num meio computeiro, e nele existem várias pessoas extremamente racionais e concretistas, que não levam a sério o poder da compreensão sutil das coisas, um negócio que transcende os questionamentos e as tentativas de se provar as coisas.

Parecem haver nesse mundo ideias tão sutis que, se você tentar enunciar qualquer coisa sobre elas, não vai fazer sentido. Mas, se você tentar apenas compreendê-las, fará sentido. Dá a impressão de que concretizar algumas coisas torna-as pesadas demais para elas continuarem existindo, e aí elas deixam de existir. É como quando você está fazendo alguma atividade tipo jogar boliche: do nada, você tem aquele estalo do jeito certinho de jogar que vai fazer strike! Nesse momento, você tem duas alternativas: 1) simplesmente joga, fazendo o strike! 2) titubeia ou para só um pouquinho pra pensar: e aí você erra.

sábado, 21 de julho de 2012

Saber que não sabe

Lidar com a dúvida dá muito mais trabalho do que com a certeza.

Mas, na vida, existem muito mais dúvidas do que certezas. Aí, o que alguns fazem é fingir que certas dúvidas não existem, fingir que são certezas. Aí, o que alguns outros fazem é ir na onda desses primeiros. E fica todo mundo se sentindo feliz e seguro.

E iludido.

É muito mais produtivo aceitar logo de cara as incertezas da vida, diminuindo a arrogância e aumentando a humildade. A humildade é extremamente poderosa, ela te deixa de olhos abertos. A arrogância ofusca, ela aumenta os riscos de erro ao fingir minimizá-los. "Eu manjo pra caramba disso, então eu sei que vai ser de tal jeito". Parece lindo, fica ótimo num discurso, convence todos os superiores na hierarquia. E é sólido como água.

A humildade faz meio que o contrário, ela logo põe na mesa os riscos de forma clara e compartilha-os. Depois, ela abre para discussão e aponta alguns caminhos tidos como os mais propensos a dar certo, sem dar garantia nenhuma.

A vida não nos dá garantia nenhuma. Quem somos nós pra dar alguma?

Tem nego que diz que tá provado que Deus não existe. Tem nego que diz que tá provado que Deus existe. E fica essa batalha de egos, bem típicas de Facebook, e ninguém chega a lugar nenhum.

Meu, por que todo mundo não admite que não sabe e pronto? É feio não saber? Claro que não. Feio é não saber que não sabe!

Quem sabe que não sabe vai com uma postura muito melhor, com uma cabeça muito mais aberta, com uma chance muito maior de acertar. Por quê? Porque esses vão buscar saber. E acabam sabendo mesmo, porque foram atrás de saber.

Quem acha que já sabe costuma não considerar direito a possibilidade de estar errado, costuma não se adaptar bem a mudanças, que são inevitáveis.

Mas, como eu disse, lidar com a dúvida dá muito mais trabalho do que com a certeza. Exige mais estrutura, mais calma, menos necessidade de sensação de segurança... E por aí vai.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

É bem por aí mesmo

Acabei de ver isto: http://9gag.com/gag/4474920

Eu já tinha visto há muito tempo, e curti desde a primeira vez em que li. Aí me lembrei de várias coisas...

Uma delas é a seguinte: é difícil seguir firme nos seus sonhos. Porque o mundo não sonha o mesmo que você. O mundo não enxerga o mundo com os seus olhos, só você faz isso. Só você tem a sua visão. Só você tem a sua vivência.

Não dá pra depender da opinião dos outros para viver a sua vida. Claro que dá pra ouvir a opinião dos outros, mas fazer isso é tão arriscado quanto não fazer. O mundo vai tentar te convencer de que você está errado e você vai tentar convencer o mundo de que ele está errado. Essa é a dinâmica da vida, assim como pechinchar é a dinâmica de se fechar um negócio.


Como todo mundo, às vezes eu me esqueço disso, e fico achando que eu estou errando nas minhas ideias, que eu estou exagerando nas minhas convicções, que eu estou sozinho no mundo etc. etc. etc. Nada disso é verdade. Tudo isso vira e mexe passa pela cabeça da gente, mas, do mesmo jeito que entra, tem que sair. Lembre-se de quem você é, lembre-se do que te levou aonde você está, lembre-se das suas convicções e de todos os benefícios que elas já te trouxeram.


Esteja disposto a mudar de convicções, mas somente quando tiver convicção da mudança. Tenha certeza de que foi VOCÊ que mudou de opinião, não alguém de fora que tentou mudar sua opinião.

Opinião é uma coisa complicada... Muitas vezes ela atrapalha. Muitas vezes ela ofusca. Tá cheio de coisa objetiva por aí disfarçada de subjetiva na cabeça das pessoas. Tá cheio de gente querendo dar pitaco em coisas que nem sacou direito como funcionam, alegando que "é assim que funciona numa democracia". Tá cheio de gente enfiando política onde não existe, tá cheio de gente inventando problema que não existe, tá cheio de gente querendo complicar coisas simples e simplificar coisas complexas.

Costumo pensar que complicado é uma coisa, complexo é outra. Complicado é aquilo que alguém complicou (em geral, desnecessariamente). Complexo é aquilo que é, em essência, complexo. Por exemplo, um país inteiro de 300 milhões de habitantes é algo complexo. Uma função logarítmica é algo que às vezes é complicado (por alguém).

Não deixe que quem não sabe o que diz atrapalhe a sua visão. Mantenha a sua visão. Aprenda com o mundo, mas saiba que o seu potencial é maior que o do mundo. Sabe por quê? Porque você não controla o mundo, mas você controla você mesmo. Então, sendo você o referencial, você é o ser mais poderoso que existe. Já pensou nisso?

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Enxergando o óbvio


Nego enche a boca pra enfiar palavras em inglês em situações completamente desnecessárias. Gringo - que fala inglês bem melhor que a gente - vem ao Brasil e acha isso ridículo.

Professor sem-noção não tem a menor capacidade de dar uma boa aula e motivar seus alunos. E enche a boca pra falar que é Doutor.

Pessoas comuns escutam verdadeiros insultos, que a indústria fonográfica insiste em chamar de música. E acham isso ótimo. Alguns inclusive obrigam os outros a escutarem também, ao passarem com seus carros barulhentos.

Mídias divulgam conteúdo completamente enviesado, irrelevante, sem nada construtivo, carregado de preconceitos e deseducações. E ganham prêmios de responsabilidade social.

Nego se acha inovador repetindo o que dizem os caras A, B e C - caras que o cara renomado D garantiu que sabem o que estão falando.

Empresas consideram-se na vanguarda da tecnologia mundial porque sabem desenvolver sistemas de software, enquanto nego lá fora tá estudando e desenvolvendo as linguagens de programação que nem existem ainda, as plataformas que nem existem ainda, os conceitos abstratos que nem existem ainda.

Pesquisas científicas gastam milhões para descobrir coisas totalmente irrelevantes, inúteis ou óbvias. ("Cigarro faz mal", "Dormir bem faz bem", "Ser feliz é importante")

Nego escreve um livro tosco e bota mil estrelas em volta disso no currículo. Você vai ler o livro e acha um lixo. Você dá essa sua opinião pra alguém e a pessoa diz que você é que é chato.

Você conhece uma pessoa maravilhosamente competente que estudou numa faculdade particular, e outra pessoa incrivelmente imbecil que estudou numa renomada universidade pública. Essa última faz parte da elite intelectual do país e a primeira não.

Você tenta explicar alguma coisa que basta abrir os olhos para enxergar e é considerado herege porque a sua opinião diverge da opinião da maioria.


A cada dia que passa, três coisas acontecem comigo:
  1. fica mais óbvio pra mim o quão ridículo é tudo isso;
  2. tenho menos paciência com esse tipo de atitude;
  3. fica mais claro pra mim o quanto podemos, como humanidade, ser muito melhores do que isso.


Então, peço licença para parar de tentar enganar a mim mesmo e para dizer algumas coisas óbvias:

Que mania ridícula de usar estrangeirismos à toa.
Que mania ridícula de automaticamente se considerar inferior em tudo.
Que mania ridícula de achar que o que está escrito em livro é automaticamente verdade.
Que mania ridícula de agir de certas formas sem motivo nenhum, só porque "todo mundo sempre fez assim".
Que mania ridícula de valorizar coisas imbecis e discutir assuntos idiotas.
Que mania ridícula que homem tem de falar mal de mulher e mulher tem de falar mal de homem.
Que mania ridícula de achar que "ser desonestinho aqui rapidão" não tem problema nenhum.

(Como eu disse, ando sem paciência, então me desculpem a sinceridade :))

Acha que eu estou enganado? Dê argumentos.
Acha que eu sou maluco? Prove.
Discorda? Sustente uma opinião contrária.

Na boa? Estou de saco cheio de ser mal-visto, mal-interpretado e até considerado "alguém que não sabe o que está falando" por pessoas que nunca sequer pararam pra pensar nos assuntos sobre os quais eu reflito, analiso, discuto e estudo quase todos os dias da minha vida praticamente desde que eu nasci.

Para deixar claro: todas as minhas opiniões são muito bem fundamentadas. Elas têm como base conhecimentos em diversas áreas, sejam formais (computação, música, rádio) ou informais (didática, línguas, psicologia, filosofia), além do convívio constante com pessoas de diferentes áreas de atuação, religiões, origens e pontos de vista.

Isso não quer dizer que as minhas opiniões estejam sempre certas ou que você não possa ter opiniões diferentes. Só quer dizer que elas são válidas, e que outras opiniões também precisam estar fundamentadas. Não adianta dizer que algo não é válido sem explicar os porquês, apresentar uma alternativa ou no mínimo já ter refletido bastante sobre o assunto.

Se nem sempre eu pareço ter muita segurança no que estou falando, é pelo seguinte motivo: porque sei que ainda tenho muito o que aprender. Sei que posso mudar de opinião futuramente e sei que eu posso estar errado. Infelizmente, existe muita gente que se coloca como "aberto a discussão" e no fundo é cabeça-dura, só aceitando o que lhe convém e inventando maneiras de enganar a si mesmo ou de distorcer uma discussão.


Na boa? Se você quer ser inovador de verdade, renomado de verdade, respeitado de verdade, faça o seguinte:
  • Seja você mesmo. Olhe mais pra dentro do que pra fora.

  • Trabalhe no desenvolvimento do seu próprio senso crítico e aprenda a confiar nele. Ouça a todos, mas conclua por si mesmo.

  • Julgue as pessoas não por sua posição, título ou passado, e sim por sua coerência. Verifique se a pessoa vive o que diz, e se o que ela vive é uma coisa boa.

  • Aprenda a sentir as coisas. Existem conhecimentos que você tem duas formas de adquirir: 1) estudar durante 30 anos aplicando modelos estatísticos que comprovem cada detalhe cientificamente; 2) perceber a verdade em minutos apenas com sua intuição.

  • Livre-se dos preconceitos - de todos os que conseguir. Faça-se sempre as seguintes perguntas: 1) Sou eu mesmo que acredito nisso ou eu apenas fui ensinado a acreditar? 2) Eu já acreditei nisso um dia, mas será mesmo que eu ainda acredito hoje?

  • Cerque-se de boas influências. Conheça pessoas inspiradoras, ouça músicas inspiradoras, veja filmes inspiradores, leia histórias inspiradoras. Não me refiro necessariamente a obras motivacionais. Qualquer excelente trabalho é uma excelente fonte de inspiração.


Termino citando este texto, simples e direto, com o qual concordo plenamente, de um site que descobri hoje, o http://www.serprofessoruniversitario.pro.br/:
O Professor Universitário no Brasil é um amador e não um profissional da Educação. Pois em nenhum momento de sua carreira lhe é exigido, ou mesmo facilitado, que adquira conhecimentos e habilidades de Pedagogia e Didática.

As políticas públicas e a legislação sempre enfatizaram como exigência para o acesso à carreira o domínio e profundidade dos conhecimentos na área e matéria que irá ensinar.

Os poucos professores que adquirem essas habilidades e conhecimentos o fazem somente por interesse e iniciativa própria, e assim mesmo tendo que ultrapassar barreiras institucionais até mesmo para reconhecer as qualificações obtidas.


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