segunda-feira, 6 de maio de 2013

Ludificação de formiguinha

Ludificação é o uso de técnicas de design de jogos que utilizam mecânicas de jogos e pensamentos orientados a jogos para enriquecer contextos diversos normalmente não relacionados a jogos.
Para quem não conhecia, taí o significado de ludificação.

Para quem já conhecia a ideia, possivelmente conhecia-a com seu nome em inglês: gamification.

Meu ouvido já tinha sido "presenteado" com a incrível tradução "gamificação". Quer dizer: o cidadão tem a manha de usar duas línguas diferentes na mesma palavra. Jogou a fonética no lixo, deu uma bicuda na clareza, estraçalhou a acessibilidade. Como se o nosso ouvido fosse pinico.

Já o outro cidadão, um tal de Jaccoud (usuário da Wikipédia), traduziu BRILHANTEMENTE a palavra gamification para o português, resultando nesse termo preciso e bonito: ludificação!

Estou maravilhado... Não tenho palavras para descrever minha felicidade! Havia muito tempo que eu pensava em um possível jeito de expressar essa ideia em português decentemente, e nada me vinha à cabeça... Agora, já posso fazer isso!

Quem é frequentador assíduo aqui, ou me acompanha no twitter, ou mesmo - por que não? - conhece-me pessoalmente, sabe o quanto eu curto a língua portuguesa e o quanto milito seu uso correto. Aliás, eu milito o uso correto da língua inglesa também (principalmente pronúncia) . Aliás, eu milito o uso correto de qualquer coisa!!

Não acho que estejamos no mundo a passeio. Não acho que "tudo bem" sair fazendo tudo de qualquer jeito. Não acho que "ihhh, isso aí não é nada". Acho que tudo conta. TUDO! Você sabe o que é tudo? Eu também não :)! Também nunca conheci o verdadeiro tamanho e abrangência de "tudo". Mas tudo bem. Até onde "tudo" for, continuo acreditando que tudo conta.

Também acredito no seguinte: estamos no mundo para aprender. Aprender = aprender a fazer as coisas certo, direito, decentemente, como preferir (olha só, temos três opções!). E isso começa pelas palavras que saem de nossas bocas. Aliás, começa antes: nos pensamentos que passam por nossas cabeças. No entanto, essa parte de vigiar os pensamentos é mais difícil, exige mais trabalho e dedicação para aprimoramento. Então, nem precisamos ir tão longe. Podemos começar pelas palavras fisicamente ditas, mesmo.

Você quer fazer desse mundo um mundo melhor? Garanto a você que você não vai conseguir começar já de cara acabando com toda a fome, salvando todas as baleias, preservando todas as árvores, zerando a violência. Talvez você consiga, sim, fazer alguma dessas coisas, ou até todas elas! Mas não vai ser logo no começo. No começo, você dará passinhos de formiga. Você fará coisas que não dão IBOPE. Você fará coisas tontas, coisas para as quais poucas pessoas darão valor, coisas que parecerão ter pouca influência, porque terão pouca influência mesmo! Verdade seja dita.

A questão é que a pouca influência de hoje é a muita influência de amanhã, caso você siga trabalhando nos seus sonhos. O trabalho de formiguinha de hoje pode evoluir, caso você dedique-se a isso. E esse trabalho evoluído, experiente, esse sim, fará diferenças grandes no mundo.

Quando eu defendo os detalhes, não estou de brincadeira. Quando eu digo coisas que sei que a maioria das pessoas acha besteira, sei muito bem que a maioria das pessoas acha que é besteira. Sabe por quê elas acham isso? Porque talvez seja, mesmo! Talvez seja, hoje. Mas a besteirinha de hoje é a questão mundialmente importante de amanhã.

Será que o senhor de terras que inventou de começar a tratar humanamente seus escravos estava apenas perdendo tempo e dinheiro lá no século sei lá o quê? Será que o índio que sabia usar bem a Terra sem detoná-la estava sendo retrógrado, e aí chegaram os europeus e "ensinaram a eles o jeito certo de fazer"? Será que o agricultor que foi contra a adoção de agrotóxicos na década de 70 estava doidinho de pedra? Ou será que essa galera toda apenas fazia o que sentia estar correto e acreditava ser o melhor? E hoje, em pleno 2013, essas atitudes "ultrapassadas, esquisitas e malucas" não são parte do sonho da humanidade atual? Movimentos pelo fim do trabalho escravo, pesquisas de manejo sustentável, agricultura orgânica... Você acha que a galera dessas áreas está de brincadeira?

Será que a vanguarda do mundo está mesmo dentro de circuitos eletrônicos integrados? Ou está nas pessoas, sendo que algumas delas fazem circuitos? Pessoas, essas, que poderiam fazer quaisquer outras coisas. Não seriam os eletrônicos apenas fruto do nosso contexto atual, sem nenhuma obrigação de continuarem sendo no futuro?


Eu sei que eu vivo batendo nas mesmas teclas já faz um bom tempo. E talvez eu esteja sendo repetitivo. Peço desculpas se for o caso. Eu só repito essas ideias porque continuo sentindo que elas são importantes, e até um tanto urgentes. Gostaria muito de saber o que você, caro leitor, acha disso tudo. Se puder deixar um comentário, agradeço! Concordando, discordando ou acrescentando, sua opinião será bem-vinda.


sexta-feira, 19 de abril de 2013

A Matrix dos Antenados

Existe em mim uma sensação constante que é a seguinte: eu sinto que o mundo se acha demais.

Eu canso, literalmente, de ouvir que estamos super tecnologicamente avançados, que "as coisas estão muito fáceis hoje em dia", que "o futuro chegou", bla bla bla. Na minha área (Computação), o contato com essa ideia é meio que natural, afinal, supostamente lidamos com o tal do "avanço da tecnologia" e talz.

Eu nunca sei direito se eu é que sou chato ou não, mas eu acho essa conversa toda uma tremenda baboseira... Na minha opinião, estamos longíssimos disso. Estamos longíssimos de estar super avançados. Estamos longíssimos de já termos resolvido tantos problemas assim do mundo e de as coisas estarem fáceis como dizem que estão.

Talvez eu não seja chato, e sim exigente. Talvez eu apenas considere como "não mais do que a obrigação do ser humano" o que para alguns é considerado avançado. Essa talvez seja a minha maneira de enxergar as coisas.

Por exemplo: existem zilhões de ciências e áreas do conhecimento nesse mundo. Quantas delas a gente já domina? Quantas delas existem há décadas, séculos, milênios, e a gente simplesmente desconhece, ignora ou apenas não aplica em nossas vidas? Quanta coisa a gente já sabe mas ainda não consegue fazer? Quanta coisa a gente não sabe? Quanta coisa a gente nem sabe que não sabe?

Imagine quantas pessoas no passado já não tiveram problemas similares aos que a gente enfrenta hoje e já os resolveram de formas incríveis, e nós nunca saberemos. Será que às vezes não nos falta humildade ao falar sobre as pessoas do passado? Será que eles eram mesmo tão burros quanto a gente às vezes acha que eram? Ou será que eles nunca puderam se defender de nossas críticas, e na verdade muitos deles eram muito inteligentes e faziam coisas louváveis?


Voltando às diversas áreas do conhecimento... Pegue-se como exemplo. Quantas áreas você conhece? Quantas delas você pratica no seu dia-a-dia? Chuto que algumas unidades ou dezenas, certo?

Vamos supor que você seja computeiro e também goste de música, viagens, futebol, culinária e literatura. Então, você conseguiu pensar aí em umas cinco áreas de interesse suas (pode haver mais, mas você brevemente listou essas). Aí eu pergunto: quanto de música você conhece? Quantos estilos musicais você consegue enumerar e quantos deles você escuta no dia-a-dia? Quantas viagens você já fez na vida? Quantos por cento do mundo você já conheceu? A quantas Copas do Mundo você assistiu, quantos diferentes tipos de comida você conhece, quantos diferentes gêneros literários de quantas línguas diferentes você aprecia rotineiramente?

Provavelmente, a resposta para essas perguntas será "alguns/algumas". Muito bem.

No geral, conhecemos alguma coisa do que existe no mundo. Temos tempo hábil para conhecer somente parte do que existe.

Assim, soa-me pretensão demais querer dizer alguma coisa a respeito do mundo inteiro, querer generalizar, manja? "Todo mundo gosta de tal coisa", "Todo mundo pensa de tal forma", "Ninguém faz mais tal coisa", "Tal ideia já morreu", "Tal costume morreu", "Hoje em dia tudo está da forma X, Y, Z".

Estas são algumas ideias um tanto questionáveis que eu já ouvi, direta ou indiretamente:
  • Todo mundo tem smartphone
  • Todo mundo no Brasil deveria aprender inglês em vez de português
  • Todo mundo é viciado em café
  • Todo mundo tem que ter facebook
  • Todo mundo quer é dinheiro
  • CD/DVD/Blu-ray/mídia física já morreu
  • Computador desktop já morreu
  • Rádio já morreu, agora é só pela internet

Fiz agora uma pequena busca de dados estatísticos. Aí vai, para refletir:

Botando um pouco mais de lenha na fogueira:

As pesquisas citadas já tem algum tempo, mas creio que ainda estejam próximas da realidade atual. Caso alguém discorde, convido a buscar dados mais recentes.



Como eu dizia, acho bastante questionáveis as ideias mencionadas acima. E acho que mais gente deveria questioná-las também.

Algumas pessoas expõem essas ideias explicitamente. Outras fazem de outra forma, que eu considero pior: passam adiante essas ideias implicitamente. É esquisito pensar desta forma, mas existem pessoas que, por meio de suas atitudes, parecem querer ditar aos outros que caminhos eles devem seguir.

Pára tudo, meu.

O mundo é diverso, por definição. Toda vez que você tenta colocar tudo o que existe nele dentro de uma caixinha minúscula, você tenta sufocar o que nele há de mais belo. Que história é essa de "todo mundo faz tal coisa", "todo mundo deixa de fazer tal coisa"? Por acaso você conhece o mundo inteiro para poder afirmar isso? Ou você só ouviu isso por aí e saiu repetindo? Ou você "leu na Veja"? Ou você "leu no ${site-mega-confiável-internacional-em-que-o-fulanão-escreve}"?

Onde é que está a interpretação individual do mundo aí, gente? Que negócio é esse de ficar dizendo que "tal pessoa ou tal site falou" e parar por aí? Quer dizer que, se o Obama amanhã resolver acordar e dizer que cocaína faz bem, vai faltar traficante para atender a nova demanda de droga no mundo?

Pára tudo, meu.

Eu acho isso tudo muito doido. Eu fico muito perdido diante dessas coisas. Onde as pessoas estão procurando suas verdades, seus valores, suas crenças, suas ideias próprias? Na internet? No Google?  Em vez de ir procurar em suas próprias cabeças, em seu próprio âmago? Deixa eu ver se eu entendi: tem uma galera enorme apostando todas as fichas no que lê pela internet, sendo essa às vezes a mesma galera que depois chama de alienado quem assiste ao Jornal Nacional? É isso mesmo? Eu entendi direito?

Eu juro para vocês que eu fico me questionando quase todos os dias sobre essas coisas. Porque eu acho isso tudo uma ideia muito absurda. Mas, ao mesmo tempo, todos os dias eu tenho a mesma sensação e percepção de que, sim, é isso mesmo que está acontecendo, por mais bizarra que pareça a ideia.

Vejo gente considerando-se inovadora e fechando os olhos para qualquer ideia que não se encaixe naquilo que ela já ouviu por aí. Vejo gente considerando-se politizada e rejeitando uma simples conversa sobre qualquer ideia de que ela discorde. Vejo gente considerando-se acadêmica e não tendo a menor capacidade de lidar com o processo de aprendizado das outras pessoas.

E agora peço licença para entrar no...

<modo-politicamente-incorreto>
Eu acho ridículo uma pessoa brasileira, nascida no Brasil, falante de português, ficar conversando em inglês com outros brasileiros, ficar escrevendo frasezinhas em inglês em twitter ou facebook (exceto quando houver real intenção de que seja lida por um estrangeiro).

Eu acho um absurdo a pessoa, no meio do discurso, em português, para brasileiros, enfiar palavras como overview, deadline, range no meio das frases, quando existem traduções exatas para essas palavras: visão geral, prazo/data-limite, intervalo. Se você não sabia, agora já sabe, então já pode começar a usá-las!

Existe um preconceito gigantesco e generalizado contra o nosso idioma, muito provavelmente motivado pelo sentimento colonial que ainda existe na sociedade. As pessoas acham que inglês tem muito mais palavras muito mais apropriadas para tudo, ao mesmo tempo em que desconhecem parte enorme do vocabulário tão rico e belo da nossa própria língua.

Não estou dizendo que é assim o tempo todo. Eu sei que existem muitas palavras em inglês sem tradução exata para o português, e sei que na Computação é praticamente impossível evitar algumas palavras em inglês. Porém, repare que isso não tem nada a ver com enfiar os tontos dos overview, deadline, range e outros no meio das frases. Isso não passa de vício de linguagem, falando o português claro. Isso só complica o entendimento e dá uma falsa sensação de chiqueza. Fazer isso não é saber inglês, é não saber português!!

Pronto, agora vamos sair do...
</modo-politicamente-incorreto>

Como eu estava dizendo, as pessoas precisam ter a capacidade de (e serem incentivadas a) pensarem com seus próprios neurônios. O mundo está cheio de conhecimento, mas nada disso tem nenhum valor se você não fizer nada com esse conhecimento. A vida só acontece mesmo quando você pega o que aprende e transforma em algo de verdade para a sua vida e para as das outras pessoas. Essa transformação pode ser já diretamente em algo concreto, ou pode ser mais interna, ideológica.

O lance é: não adianta nada você aprender um monte de regrinhas gramaticais se você continuar escrevendo a vida inteira sem usá-las, assim como não adianta nada (se você for computeiro) ouvir falar toda hora que programação funcional é muito legal sem nunca tentar escrever código usando funções de verdade. Assim como não adianta nada você ouvir falar que cereais fazem bem à saúde e nunca incluí-los na sua alimentação, assim como não adianta nada você saber que exercícios físicos fazem bem e ficar sedentário a vida inteira.

Aplicar os conhecimentos teóricos na prática não é fácil, na maioria das vezes. Porém, algumas vezes, é, sim, fácil! E, em todas as vezes, vai ficando fácil com o tempo. O grande lance não é o quão fácil é, e sim o quanto você sai ganhando quando faz isso. Transformar conhecimentos em realidade é algo que não tem preço. É algo que traz uma satisfação que não pode ser colocada em palavras. Ver resultados baseados em esforço baseado em aprendizado é simplesmente a razão pela qual estamos aqui na Terra.

Você que é desenvolvedor... Lembra quando o professor de Orientação a Objetos falou sobre encapsulamento, coesão, acoplamento? Lembra o quanto aquilo soou abstrato e/ou viajado e/ou inútil? E depois de alguns anos, quando você adquiriu mais experiência e viu esses conceitos acontecendo na vida real, em projetos reais, no dia-a-dia real de uma empresa? Não foi divertido, interessante, recompensador? Não é legal ver as coisas acontecendo de verdade, aquelas coisas que pareciam lindas na teoria e que você viu que também podem ser lindas na prática?

Bom, e quais coisas da teoria podem ser aplicadas na prática? Sei lá! Muitas delas. Para saber, só tentando. Em vez de somente retuitar notícias e ideias, por que também não tuitar suas próprias notícias e ideias? Por que não criar conhecimento, em vez de apenas repassar? Por que não tentar aplicar novos conhecimentos na sua vida prática do dia-a-dia? Tipo aquela ideia maluca que você teve e lhe soou tão interessante, sem qualquer motivo aparente?

Por que não pegar as ideias aqui contidas e sair tentando aplicar por aí, para então ver se elas fazem sentido ou não para você? Eu sou o André, e para mim faz todo o sentido, mas você não é o André, você é o/a (seu nome aqui). Você pode ter experiências completamente diferentes das minhas... Ou não! Só testando para saber. E eu, André, tenho muita curiosidade de conhecer diferentes experiências, então, se você fizer isso, por favor, deixe um comentário aí abaixo dizendo como foi! Ou, mesmo se você não quiser aplicar nada e apenas deixar um comentário dizendo o que achou disso tudo, faça isso por gentileza, ficarei grato!


terça-feira, 26 de março de 2013

Valer a pena vale a pena?

Saudações, caro(a) visitante!

Após alguns meses de inatividade, estou de volta :)!

Vim para dizer o seguinte: hoje tive um dia diferente.

No dia de hoje, eu decidi fazer algumas coisas de maneira diferente de como eu vinha fazendo:

  • Fui resolver umas coisas na cidade. Mesmo isso tomando meu tempo.
  • Lavei e coloquei em uso uma panela nova que eu comprei há mais de um mês. Mesmo isso tomando meu tempo.
  • Organizei notas fiscais de algumas coisas que eu comprei. Mesmo isso tomando meu tempo.
  • Revirei uma caixa procurando umas canecas. Mesmo isso tomando meu tempo.
  • Medi a capacidade em mL dessas canecas, por pura curiosidade. Mesmo isso tomando meu tempo.
  • Fiquei olhando panelas da hora na internet. Simplesmente porque eu tava a fim.
  • Olhei alguns netbooks na internet. Simplesmente porque eu tava a fim.
Já são meia-noite e tanto. E eu estou aqui blogando. E daqui a pouco vou abrir meu computador para retirar uma peça defeituosa, porque amanhã vou no correio levá-la para que seja devolvida à loja. Mesmo isso tomando meu tempo, hoje e amanhã.

De uns anos pra cá, não sei por quê, eu criei uma espécie de aversão à ideia de perder tempo. Eu botei na cabeça que tempo era algo precioso demais para ser desperdiçado com coisas que não valessem a pena.

Eu sempre acreditei que tudo que a gente faz na vida deveria valer a pena. Do contrário, talvez não valesse a pena fazê-las. Lógica simples essa, né? Se vale a pena, vale a pena! Se não vale a pena, ixe, aí nem vale a pena :)!

É uma lógica simples e ao mesmo tempo perigosa. Ela esconde uma conclusão precipitada dizendo o seguinte: "André... Não desperdice seu tempo fazendo coisas que não valham a pena".

A intenção é boa, mas o resultado nem é.

A vida é feita de muitas coisas de que a gente não gosta. Isso é um tanto óbvio. O que não era óbvio para mim era que eu estava, e estou, RODEADO, CERCADO de coisas assim. Não é pouca coisa! Tá CHEIO de coisas que eu preciso fazer que eu acho um SACO fazer, que eu ODEIO gastar tempo fazendo, que eu ODEIO pensar que eu sou obrigado a fazer. E, no entanto, eu sou obrigado a fazer.

Saber que você tem obrigação de trabalhar é fácil. Difícil é perceber, e aceitar, que você tem obrigação de fazer as pequenas tarefinhas do dia-a-dia, como lavar a louça, lavar roupa, arrumar a casa, manter a ordem... Alguns gostam mais, outros gostam menos desse tipo de coisa. Eu sou um caso interessante: eu ADORO ver tudo em ordem, gosto muito mesmo, valorizo pra caramba... Mas geralmente acho um saco BOTAR as coisas em ordem.

...será mesmo?

Será que eu acho um saco? Em geral, eu curto pra caramba botar coisas em ordem! Então por que será que com coisas domésticas eu acho um saco? Por que será que eu andei achando um saco ter que fazer todas essas tarefinhas que eu tive e tenho que fazer, principalmente devido à mudança de residência?

Sinto que finalmente encontrei a resposta... O problema é que eu queria ser EFICIENTE fazendo isso, eu queria ser RÁPIDO fazendo isso, eu queria ME SENTIR BEM fazendo isso... Resumindo, eu queria que VALESSE A PENA fazer isso!!

E percebi que esperar as coisas valerem a pena nem sempre vale a pena... Às vezes vale mais a pena fazê-las mesmo não valendo a pena. Elas em si talvez não valham a pena, mas O RESULTADO de ter as coisas feitas, esse sim, vale a pena!

Esse aí vale o sacrifício de ir dormir tarde, vale a encheção de vencer a preguiça, o cansaço, a inércia e a procrastinação. E foi isso que eu consegui fazer hoje, de maneira ainda pequena. Eu consegui fazer pequenas coisas que eu estava ligeiramente a fim de fazer. E só consegui porque eu FIZ E PRONTO, em vez de pensar nas consequências, em vez de avaliar riscos, em vez de colocar "no papel" pra ver se valia ou não a pena.

Às vezes é melhor aceitarmos as coisas ruins e abraçarmo-las, por mais estranho que isso pareça. As vezes as coisas ruins não são tão ruins assim, elas apenas parecem assim porque a gente olha para elas com um olhar meio equivocado. Às vezes, abraçar a causa que você não queria simplesmente porque você é obrigado pode ser uma coisa boa. Às vezes, um fim nobre exige trilhar um caminho nada nobre. Às vezes, é melhor ficar quieto e aceitar o trabalho chato para atingir o fim legal.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O quadro inteiro da vida?

Uma coisa que não acontece comigo hoje é aquele sentimento de saudade da infância. Eu já tive muito isso, mas hoje não mais. Eu adoro minha vida de hoje e adoro a idade que eu tenho!

Costumo dizer que, se eu morresse hoje, minha vida já teria valido a pena. Fiz todas as coisas que eu queria fazer na vida, exceto aquelas sobre as quais eu mudei de ideia quanto a fazê-las e exceto aquelas que eu ainda não fiz porque ainda estou no caminho de fazer.

Não acho que sair bebendo o máximo de bebidas que conseguir e pegando o máximo de mulheres/caras que puder alguém estará aproveitando sua vida. Depois de um tempo, essas coisas passam. Pegou um monte de mulher (ou homem, se vc for mulher ou gostar da fruta)? E depois? Alguma dessas pessoas vai te visitar no hospital se você estiver no seu leito de morte?

Aproveitar a vida pra mim significa construir. Eu acredito em vida após a morte, mas, mesmo se eu não acreditasse (e já não acreditei), continuaria achando a mesma coisa. As coisas que têm real significado são aquelas que te modificam para melhor, o que tem como consequência modificar também o mundo para melhor.

Aquela ideia de "viver cada dia como se fosse o último" é interessante, mas tem um detalhe que merece cuidado: muitas coisas na vida obviamente não são feitas em um dia, por mais que assim a gente quisesse. Você não realiza um projeto em um dia. Você não faz um amigo em um dia. Você não aprende música em um dia. Você não supera uma barreira psicológica profunda em um dia.

E, no entanto, realizar projetos, fazer amigos, aprender música, vencer barreiras psicológicas etc. fazem parte da vida. Se cada dia fosse o último, não valeria a pena nem começar nada disso.

...ou será que valeria?

Sipá, sim. Porque o mais importante não é chegar lá, e sim curtir o processo. O risco de não chegar é inerente à tentativa. E, se você não chegar lá, você vai com certeza chegar em algum outro lugar, e isso terá te agregado muito.

Eu fiz mestrado durante 3 anos. Após mais ou menos um ano e meio do início, percebi que não era aquilo que eu queria fazer. Já não valia mais a pena voltar atrás. Valia a pena terminar, ainda que esse processo fosse muito sofrido, e foi mesmo. Mas o tanto de coisa que eu aprendi nessa brincadeira não foi brincadeira. Por exemplo, aprendi a lidar com situações adversas e terminar coisas que eu não curto. Eu simplesmente não sabia fazer isso.

E, obviamente, coisas que a gente não curte acontecem direto. Agora, eu sei lidar melhor com isso. Antes, eu não sabia. Se você mostrasse para o André de 2008 um filme retratando uma semana minha de sofrimento com o mestrado em 2010, é bem provável que eu tivesse desistido de fazê-lo.

Por sorte, a gente não tem nenhuma maneira de saber o que virá de antemão. Temos apenas a visão limitada que a gente consegue ter naquele momento. Se eu tivesse desistido de começar, seria uma pessoa com menos sabedoria hoje.

...ou não.

A vida não nos dá certezas. Só temos certeza das coisas que já aconteceram, se é que temos. Não adianta querermos viver baseado em certezas. Não temos o código-fonte do mundo na mão para poder editar e comitar. Não temos acesso a todas as variáveis. Nem sabemos quais são todas as variáveis.

Por isso é que eu acho tonta essa galera que fica fazendo um milhão de previsões sobre o mundo futuro e fica afirmando aquilo com frases pomposas como "Coisa A morreu: chegou a vez de B", "Você ainda faz C? Conheça D, a tecnologia que vai revolucionar sua vida". Isso é mó papo de jornalista que só quer vender sua matéria. A verdade é que ninguém tem certeza de nada, inclusive eu com essa frase.



Em vez de ficar a vida inteira correndo atrás de certezas, é muito mais prático aceitar a ocorrência dos reveses da vida e saber lidar com eles positivamente. É muito mais prático exercitar o desapego para estar preparado para os momentos de perda. É muito mais prático aprender a lidar com o pouco controle que temos do mundo e aprender a lidar com o grande controle que podemos ter de nós mesmos.


Sejamos honestos: ninguém aqui conhece o quadro inteiro da vida, né galera! Vamos deixar o mundo seguir seu rumo. E, por favor, jornalistas e blogueiros, vamos parar com a arrogância de querer se colocar como aquele que "resolveu todos os mistérios da vida", que é o que às vezes soa pra mim ao ler alguns títulos de reportagens por aí. Espero que eu não tenha causado essa impressão com esse post, pois a ideia é fazer justamente o contrário :).

sábado, 24 de novembro de 2012

Detalhes tão pequenos e grandões

Sempre fui considerado detalhista. Principalmente por mim mesmo.

Eu realmente sou um cara detalhista, e isso é uma característica marcante minha.

Mas, nos últimos anos, andei percebendo vários fatos interessantes sobre os detalhes. Esses fatos aplicam-se totalmente a desenvolvimento de software, assim como a muitas outras coisas.

1) É muito mais fácil aprimorar um detalhe do que um negócio inteiro. A galera que gosta de melhoria contínua deve ter isso bem vivo em mente. Melhorias gigantes não são feitas da noite pro dia. Melhorias minúsculas, sim. Aliás, você consegue fazer UM MONTE delas da noite pro dia. Resultado? Satisfação, motivação, experiência, aprendizado. Excelentes ingredientes para uma mudança maior.

2) Produtos de enorme sucesso são extremamente bem acabados. Se você pretende na sua vida criar alguma coisa realmente muito marcante para as pessoas desse mundo, seja para vender ou não, atente para os detalhes. Grandes músicos fizeram isso, grandes designers fizeram isso, grandes desenvolvedores, professores, cineastas, escritores etc. fizeram isso. O "efeito novidade" perde o encanto rapidamente. Os detalhes ficam.

3) Certas coisas são detalhes hoje, mas serão a parte principal amanhã. Hoje, "deixar tal coisa mais bonitinha" não fará diferença. Amanhã, quando o seu projeto for gigante, aquela coisa terá servido de inspiração para a criação de um monte de outras. Parta de uma base tosquinha mantendo o padrão e terá um resultado final toscaço. Parta de uma base bonitinha mantendo o padrão e terá um resultado final maravilhoso.


Por muito tempo, eu estive cansado de ser detalhista. Ficava brigando comigo mesmo, tentando colocar na cabeça que ser detalhista só atrasaria a minha vida.

A verdade é que, mesmo cansado, eu nunca consegui mudar muito isso, pois sempre adorei os detalhes. Hoje, cansei de estar cansado disso :).

Enxerguei o verdadeiro valor e potencial dos detalhes. Enxerguei que eles te levam muito mais longe do que apenas "ajeitar um negocinho aqui". Eles te fazem repensar sua vida inteira, só que eles fazem isso devagar, então você às vezes nem percebe. Quando vê, tudo já mudou.

É porque não mudou de uma hora para a outra, porque nada que é gigante muda de uma hora para a outra. Então, na próxima vez em que alguém virar pra você e falar "O mundo é assim mesmo e tal coisa nunca vai mudar", pergunte para ela quantas pequenas mudanças ela tem feito na sua própria vida. Se a resposta for nenhuma, confirme com todas as letras: "Hm, você tem toda a razão!".

domingo, 18 de novembro de 2012

Faço, logo existo

Antigamente, eu ficava muito nervoso diante de quase qualquer situação em que eu tivesse que tomar uma atitude envolvendo riscos. A simples palavra "decisão" já me causava medo.

Eu tinha consciência de que não poderia viver assim a vida inteira. Eu teria que mudar. Por mais assustadora que parecesse essa ideia de mudança, a ideia de ficar do mesmo jeito a vida inteira parecia muito mais assustadora. Em outras palavras, me vi obrigado a escolher entre o pior e o menos pior :).

Às vezes, eu ficava me imaginando no futuro... Imaginava um cara que conseguiria tomar muitas decisões na vida, sem ficar com medo, sem ficar enrolando, sem ficar pensando exageradamente nas consequências.

Hoje, muitos anos depois, vejo que eu estava QUASE certo sobre o meu futuro :).

Hoje, realmente consigo tomar muitas decisões na minha vida. Consigo não ficar enrolando, consigo não pensar exageradamente nas consequências. Penso o suficiente e PÁ, vou lá, decido e ajo.

Mas existe uma coisa que é bem diferente de como eu pensava que iria ser: a parte do medo. Essa não mudou muito, não :)... Antes de cada decisão a ser tomada, continua me dando medo. Durante cada reflexão que precede uma decisão, continua me dando calafrios, continua me dando insegurança.

Em situações de decisão, segurança é uma das coisas de que mais se sente falta. Tudo o que você quer é ter a certeza, ou ao menos saber que a probabilidade é bem alta, de que a decisão a ser tomada será a mais acertada. Mas acontece o contrário: vem um monte de insegurança e dúvidas. E você, com isso, às vezes fica paralisado, não conseguindo decidir nada. E se ferra com isso.

Hoje, vejo a coisa de forma muito diferente. Vejo que a segurança só chega DEPOIS da decisão ter sido tomada e consolidada. A certeza da melhor escolha, se vier, é lucro, e vem depois.

Desencanei de esperar ter muita segurança e certeza para tomar decisões. Mudei a estratégia: em vez de tentar 10 vezes com 90% de certeza, tento 100 vezes com 9% de certeza. E não crio nenhuma expectativa para as primeiras, sei lá, 30 vezes. Essa fase é de aprendizado. Nessa fase, raramente o resultado é bom. Não é para isso que ela serve. Ela serve para te dar experiência. E experiência você só vai adquirir tentando, dando a cara a tapa. É a fase em que você deve deixar seu orgulho de lado e colocá-lo à disposição para ser ferido, se necessário.

Ter o orgulho ferido, muitas vezes, é um ótimo aprendizado. Torna a gente mais humilde e mais preparado para aceitar fracassos, que fatalmente acontecem.

E tem uma parte boa: não são exatamente 100 vezes com 9% de certeza. Nas primeiras 30 vezes, talvez você tenha só esses 9%. Depois, eles sobem! Pois você já entende melhor do assunto. Então, eles passam para, sei lá, uns 20%. Daqui a pouco, já estão nos 40. Logo, logo, talvez passem até dos 90! E você percebe que, com o tempo, consegue mais certeza do que conseguiria apenas estudando a situação e não fazendo mais nada.

Geralmente, a insegurança mesmo vem em situações desconhecidas, e costumamos lidar bem com as já habituais. Mas isso também tem limitações.

Uma delas é que a gente enfrenta situações novas o tempo todo. É simplesmente impraticável possuir experiência e segurança prévias em tudo.

A outra é que, em geral, somente após MUITA experiência é que ficamos realmente seguros das coisas. No geral, mesmo com a experiência, dá medo, e muito.

Antigamente, eu acreditava que situações favoráveis reduziriam drasticamente minha insegurança e impulsionariam absurdamente minha tomada de atitude. Hoje, vejo que não é bem assim. Já me vi em muitas e muitas situações EXTREMAMENTE favoráveis em que o medo e a insegurança persistiram, em um grau apenas ligeiramente menor que o normal.

Então, reduzi a importância disso na minha cabeça. Antes eu achava que o principal lance era a situação. Se a situação fosse tranquila, eu estaria tranquilo e seria de boa. Hoje, acho que a situação é apenas uma pequena parte. A principal parte mesmo é a seguinte:

A capacidade de agir APESAR do medo, APESAR da insegurança, MESMO sem certeza, AINDA QUE correndo risco.

Minha psicóloga sempre disse isso para mim de uma maneira ou de outra, e acho que eu finalmente andei entendendo :)... O caminho mais eficaz para mim ficou sendo "fazer cada vez mais coisas", e não "estudar cada vez mais situações".

Além disso, começar pequeno também ajuda muito. Você dificilmente vai conseguir vencer um Everest de bloqueios mentais da noite pro dia. Você dificilmente vai mudar um comportamento mega enraizado na sua alma da noite pro dia. Muito mais viável é buscar pequenas vitórias, pequenos progressos, nas situações em que você tiver que dar apenas um passo, e não 500.

Dado o primeiro passo, você com certeza colherá frutos. Talvez não sejam os mais doces frutos do mundo, afinal, você estará na fase de aprendizado. O importante mesmo é que você DEU aquele passo. Você cresceu. Você venceu uma pequena etapa. Você já está melhor do que estava antes. Dado esse passo, já ficou mais fácil enxergar os próximos e caminhar por eles. E assim você vai, até que um dia, quase que magicamente, você chega lá.

Essa é a mágica da vida: não existe mágica nenhuma. Existem caminhos a serem percorridos, existe esforço, fé, dedicação, superação.

Deixa eu parar por aqui antes que comece a ficar clichê demais :).

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A lógica do mundo

O mundo às vezes parece seguir mais ou menos a seguinte lógica:

Comer somente o que te faz bem é ser alternativo.
Ser coerente é ser alternativo.
Fazer um excelente trabalho é ser alternativo.
Deixar aflorarem as ideias e emoções é ser alternativo.
Tratar mulheres com respeito é ser alternativo.
Pagar à vista é ser alternativo.
Ter autocontrole é ser alternativo.
Gostar de natureza é ser alternativo.
Valorizar sua própria língua é ser alternativo.
Valorizar a música boa do seu país é ser alternativo.
Evitar preconceitos é ser alternativo.
Ter parcimônia nos julgamentos é ser alternativo.
Cuidar bem da sua própria vida é ser alternativo.


Em outras palavras:

Normal é comer o que te faz mal.
Normal é ser contraditório.
Normal é trabalhar nas coxas.
Normal é ser reprimido.
Normal é tratar mulher como objeto.
Normal é se endividar.
Normal é ser descontrolado.
Normal é gostar de artificialidades.
Normal é pagar pau pra língua dos outros.
Normal é pagar pau pra música dos outros.
Normal é ser preconceituoso.
Normal é sair julgando.
Normal é encher o saco dos outros.


E depois o louco sou eu.